O Farol da Enseada — A Tempestade Que Trancou Dois Corpos
A maré subiu antes do previsto. Marina percebeu o erro quando a água já lhe cobria os tornozelos e o barco de borracha, o único transporte de volta à vila, dançava fora de alcance, amarrado a uma boia que a enchente distanciara da pedra. Ela soltou um palavrão contra o próprio descuido, contra a previsão meteorológica que prometera calmaria até a meia-noite, e contra o instinto que a levara a fotografar os recifes por mais tempo do que devia. O céu, até ali azul-ferrete, fechou-se num roxo espesso. O primeiro trovão veio seco, como um tiro.
Ela conhecia o caminho. Quinhentos metros acima da enseada, no topo do morro, o Farol da Enseada mantinha-se de pé desde 1898. Subiu a trilha de pedra solta com a mochila batendo nas costas, o vento já puxando o casaco, a respiração curta. Quando chegou à porta de madeira, estava encharcada, tremendo, com os lábios rachados de sal. Bateu três vezes. Esperou. Bateu de novo.
A porta abriu-se para um homem de ombros largos e barba de três dias. Ele a mediu com olhos escuros, sem pressa, e disse apenas:
— Entra. A parte de baixo já alagou.
O farol engole a tempestade
Tiago era faroleiro há sete anos. Herdou o posto do pai, que herdara do avô, numa cadeia de homens que aprendiam a gostar do silêncio e a desconfiar da terra firme. Trinta e quatro anos, mãos calejadas de solda e graxa, voz baixa de quem fala pouco porque o mar não ouve mesmo. Conduziu Marina até a cozinha, no segundo pavimento, e empurrou para ela uma toalha seca e uma caneca de café que já estava no fogo.
— Você é a fotógrafa que o Seu Honório mencionou?
— Sou. Marina. Vim registrar o litoral antes do paredão cair.
Ele assentiu, como se a explicação bastasse e nada mais precisasse ser dito. Desligou o rádio que rangia estática. Lá fora, o vento já uivava com força suficiente para vibrar nos vidros das janelas, e a cada rajada a chama do fogareiro tremia. Marina tirou o casaco molhado e ficou de camiseta, encolhida na cadeira, segurando a caneca com as duas mãos. O calor subia e lhe arrepiava os braços. Tiago notou — ela viu que ele notou — e desviou o olhar para a janela.
— Não vai conseguir descer hoje — disse ele, sem que ela tivesse perguntado. — A trinha desliza com a chuva. Amanhã, na maré vazia, eu te levo.
Era uma sentença e, ao mesmo tempo, um convite. Marina aceitou os dois termos sem reclamar. Havia algo naquele lugar — o cheiro de óleo quente, o zumbido constante da maquinaria giratória no topo, a presença daquele homem que não forçava conversa — que lhe acalmava o nervosismo mais do que deveria.
Lâmpada, vento e silêncio
A energia caiu às nove da noite. Tiago acendeu três lampiões a óleo, do mesmo tipo que o avô usava, e a cozinha ganhou uma luz amarela e trêmula que fazia as sombras se mexerem nas paredes caiadas. Sentaram-se frente a frente na mesa de tábua grossa, dividindo pão dormente e queijo curado. Ele perguntou sobre o trabalho dela, e Marina falou mais do que pretendia — sobre os recifes que desapareciam, sobre o projeto da universidade, sobre a solidão curiosa de quem fotografa paisagens que logo deixarão de existir.
Tiago ouvia com o corpo inclinado para a frente, os cotovelos na mesa, o queixo apoiado nos nós dos dedos. De vez em quando, fazia uma pergunta curta que cortava certo no meio do que ela dizia e a obrigava a se corrigir, a pensar melhor, a rir de si mesma. Marina percebeu, assustada, que há muito tempo ninguém a escutava daquele jeito.
— E você? — ela perguntou. — Não sente falta de… gente?
— Sinto. Mas sinto mais falta do que a gente perde quando fica perto demais.
Foi a frase mais longa que ele dissera a noite toda. Marina ficou em silêncio. O vento arranhou a janela. O lampião pestanejou. Ela percebeu, então, que tinha se inclinado na direção dele sem querer, e que ele não se afastara.
A sala da lanterna
Tiago levantou-se e estendeu a mão, não para ajudá-la a levantar, mas para convidá-la. — Sobe comigo. A visita é às terças, mas vou abrir exceção.
Subiram a escada de ferro em espiral, três lances, até a sala da lanterna — a cúpula de vidro e bronze donde a luz girava. A maquinaria, antiga e lustrosa, rodava com um ronco grave que Marina sentiu no peito. A lente de Fresnel, gigantesca, projetava feixes que varriam o mar negro lá embaixo. Cada vez que o facho passava pela janela, o rosto de Tiago acendia e apagava, acendia e apagava, como um sinal.
Ela encostou-se ao parapeito. Ele ficou ao lado, a centímetros, o suficiente para o calor dos dois se misturar no frio do vidro. A tempestade inteira se desenrolava aos pés deles: relâmpagos rasgavam o horizonte, presos entre o céu e o desejo, a chuva batia na cúpula como cascalho, as ondas batiam nos rochedos e subiam em espuma que o vento arrancava para o alto. Era bonito e assustador. Era impossível não se sentir pequeno.
— O farol não serve para salvar navios — disse Tiago, olhando o mar. — Serve para avisar que existe terra aqui. Que existe alguém.
Marina virou-se para ele. Os olhos de Tiago, iluminados de relance pelo feixe giratório, encontraram os dela. Ela não pensou. Colocou a mão no peito dele, sentiu o coração bater depressa por baixo da camisa de flanela, e ele cobriu a mão dela com a sua. Apertou. Puxou-a para mais perto. O beijo veio lento no começo, como quem testa a firmeza do chão, e depois fundo, com a urgência que a tempestade pedia emprestada.
Quando o raio iluminou tudo
Tiago guiou-a de volta à cozinha, pela escada de ferro, e no meio do caminho parou num patamar estreito e a beijou de novo, agora contra a parede, com as mãos descendo pelas costas dela até a cintura, puxando a camiseta para fora da calça. Marina soltou um som baixo, meio riso meio suspiro, e ele sorriu contra a boca dela — o primeiro sorriso que ela via.
Na cozinha, sobre a mesa de tábua, ou contra a parede onde o lampião projetava as duas sombras como uma só, não houve pressa propriamente, mas uma fome contida que finalmente se largava. Tiago era cuidadoso com as mãos rudes — descia devagar, perguntava com o olhar, esperava o sim que vinha no arfar de Marina, no modo como ela erguia o queixo e cerrava os olhos. Ele conhecia o ritmo das marés e levou aquele conhecimento para o corpo dela: subia, parava, recuava um fio, voltava quando sentia o tremor certo.
Marina, que passara meses atrás da lente fotografando coisas que se desfaziam, agarrou-se a algo que, naquele instante, parecia inabalável. Um raio caiu perto, tão perto que a casa tremeu e a luz do lampião sumiu por um segundo. No escuro brevíssimo, os dois ficaram só respiração e pele. Quando a chama voltou, ela viu o rosto de Tiago muito próximo, suado, sério, bonito de um jeito que não estava nas fotografias. Puxou-o pelos cabelos. Ele gemeu o nome dela pela primeira vez. E o farol lá em cima continuou girando, indiferente, fazendo seu trabalho de avisar que existia alguém.
A maré vazia da manhã
Acordearam depois do nascer do sol, num colchonete no quarto do zelador, sob um edredom que cheirava a lenha e maresia. A tempestade passara. Pela janela, o céu estava de um azul duro e lavado, e a enseada, lá embaixo, brilhava calma como se a noite anterior tivesse sido inventada. Marina ficou um longo minuto olhando o perfil de Tiago dormindo, a barba escura contra o travesseiro, o braço pesado sobre a cintura dela.
Levantou-se sem fazer barulho. Vestiu-se. Foi até a cozinha e encontrou o café já passado e duas canecas lado a lado, como se ele tivesse previsto. No fundo, previra tudo: a maré, a descida impossível, a noite inteira. Marina sorriu para si mesma, encostada na bancada, e achou que não se importava de ter sido prevista.
Tiago desceu meia hora depois, calçado, com a mochila dela já arrumada. — A trilha secou. A maré vazia dura até as onze. Caminharam juntos até a base do morro. No fim da trilha, onde a pedra encontrava a areia, ele parou e disse, com a mesma voz baixa de sempre: — Quando quiser fotografar de novo, a maré sobe todo dia. Eu aviso antes.
Marina beijou-o de leve, só nos lábios, guardou o gosto de café e sal, e seguiu pela praia com a mochila nas costas. Não olhou para trás, mas soube, sem precisar olhar, que ele ficara parado ali, vigiando, até ela sumir — como o farol vigia o mar, sem pedir nada em troca, só para garantir que ela soubesse que existia alguém.