junho 21, 2026

A Aula de Surfe — Quando a Maré Encheu e Levou Tudo

A Aula de Surfe — Quando a Maré Encheu e Levou Tudo

Tomás desembarcou no asfalto quente de Garopaba antes das cinco da manhã, com a mala errada e o coração ainda em fuso de Londres. Há onze anos não punha os pés naquela costa. O cheiro de maresia, no entanto, reconheceu-o antes de qualquer outra coisa: entrou pelas narinas ainda dentro do táxi, misturado a café requentado e jasmim-do-campo, e fez algo dentro dele se soltar devagar, como uma âncora enferrujada que cede.

O motivo da viagem era uma aula de surfe. Simples assim. Trinta e quatro anos, a vida inteira empilhada em planilhas e reuniões por videochamada, e ele finalmente comprara uma prancha usada de um amigo — sem saber remar direito, sem saber levantar, sem saber quase nada do mar que o criara e que ele deixara para trás aos vinte e três. A instrutora fora indicação do primo. Larissa, a melhor da praia. Ela te coloca em pé na primeira manhã.

A Praia Antes do Mundo Acordar

Ela já estava na areia quando ele chegou. De costas, ajustando o leash numa longboard amarela, com o sol nascendo atrás das dunas e dourando os ombros dela de um jeito que fez Tomás parar alguns passos antes — a mesma luz dourada que ele lembrava daquele encontro de tarde dourada que marcara a sua juventude, anos atrás. Não era um corpo de revista. Era um corpo de mar — marcado pelo sol, forte nos lugares certos, com uma cicatriz clara no tornozelo esquerdo e o cabelo preso num coque preguiçoso que escapava em fios soltos contra o pescoço. Ela se virou antes que ele se anunciasse.

— Tomás? — A voz era grave para uma mulher, com aquele arrasto de quem cresceu falando com o vento. — O filho da Dona Cleide?

— Em pessoa. — Ele ergueu a mão num cumprimento meio desajeitado. — Acho que tenho muito a reaprender.

Larissa sorriu devagar, sem pressa, e ele percebeu que aquele sorriso não era para ele. Era para o mar. Era o sorriso de quem acorda todos os dias às quatro e meia porque não consegue mais dormir longe da água. Ela tinha trinta e um anos e a pele de alguém que vive do sal. Os olhos eram castanhos, quase cor de mel claro quando a luz batia de frente.

— Não precisa reaprender nada. — Ela entregou-lhe a prancha amarela, mais pesada do que ele imaginava. — Precisa é desaprender. A cabeça de quem trabalha em escritório é dura demais pra entrar no ritmo da água. Primeiro a gente solta isso.

A Primeira Remada

A primeira hora foi só técnica. Deitar na prancha, alinhar o corpo, remar sem cotoveladas largadas, sentir onde o peso cai. Larissa corrigia com as pontas dos dedos — no meio das costas dele, na curva do quadril, na nuca, quando ele encolhia os ombros por reflexo de quem passa o dia curvado sobre um teclado. Cada toque durava um segundo, talvez dois, mas ficava.

— Você é rígido demais — disse ela, rindo baixinho, com a mão aberta ainda pousada entre as omoplatas dele. O sol já subira e a praia continuava vazia; só um pescador distante, uma garça, e o barulho constante das ondas. — Solta. O mar não combina com gente tensa.

Tomás respirou fundo e tentou. Os dedos dela desceram pelo contorno da coluna, só para guiar, só para mostrar onde ele travava. — Aqui. É aqui que você segura tudo. Deixa cair. — E ele deixou. Algo cedeu dentro do peito, uma tensão antiga que carregava há mais de uma década, e ele riu também, surpreso consigo mesmo, deitado de bruços na prancha com o rosto quase na água morna.

— Melhor — aprovou Larissa, e a mão saiu. A ausência dela pesou mais do que o toque.

Quando a Maré Encheu

Perto das sete, ele finalmente se levantou. Foi feio, foi curto, foi uma onda miúda de meio metro, mas ele ficou em pé por quase quatro segundos antes de cair de bunda na espuma. Larissa gritou de dentro d’água, com o punho fechado no ar, e o aplauso dela ecoou contra as pedras da enseada como se o mundo inteiro estivesse assistindo. Ele emergiu rindo, com água escorrendo pelo rosto, e ela nadou até ele com aquela facilidade irritante de quem pertence ao oceano.

Foi quando reparou que o caminho de areia por onde tinham vindo já não existia. A maré subira devagar enquanto remavam, e a faixa que ligava a enseada ao resto da praia estava submersa. Eles estavam ilhados num costão recortado, com mar aberto de um lado e um paredão de pedra do outro, e a única saída era esperar a maré baixar de novo — coisa de três, quatro horas.

— Acontece — disse Larissa, sem alarme nenhum, arrastando a própria prancha para cima das pedras. — Eu que não olhei o horário direito. Culpa minha. Já fiquei presa em lugares piores que esse — uma vez, num teleférico à meia-noite, entre o céu e o desejo, sem ninguém por perto.

— Culpa de quê? — Tomás subiu atrás dela, com a prancha amarela sob o braço. — Foi a melhor manhã da minha vida.

Ela se sentou num rochedo plano, tirou o colete de neoprene até a cintura e deixou os ombros ao sol. Ele sentou ao lado, ainda pingando, e por um longo minuto nenhum dos dois disse nada. Só o mar. O sol. O bater distante de uma onda maior contra a pedra mais funda.

O Silêncio da Enseada

— Faz quanto tempo que você não vinha aqui? — perguntou ela, sem olhar, de olhos fechados contra a luz.

— Onze anos. — Ele engoliu em seco. — Saí pra estudar, saí pra trabalhar, e de repente já tinha uma década inteira que eu não tinha visto o sol nascer nessa areia. Nem naquela areia, nem em nenhuma.

— Isso é uma maneira triste de viver.

— Eu sei. — Ele olhou para ela agora, para o perfil recortado contra o céu claro, para a forma como o sal secava em desenhos claros sobre a pele dela. — Vim aqui pra mudar isso. Ou pelo menos pra começar. O calor daquele verão que não tivera fim ainda vivia em algum lugar dentro dele, sob toda a neblina de Londres.

Larissa abriu os olhos e virou a cabeça. Estavam perto — mais perto do que ele calculara, a ponto de sentir o cheiro dela, sal e protetor e um resto de café da madrugada. Ela não se afastou. Estudou-lhe o rosto com a mesma calma com que estudava o mar antes de entrar, lendo a ondulação, escolhendo o ponto certo.

— Você não veio aqui só pela aula — disse ela, baixinho. Não era uma pergunta.

— Não. — A confissão saiu antes que ele pudesse pesar. — Não só pela aula.

— Eu também não sou só instrutora. — Ela sorriu daquele jeito devagar, o mesmo sorriso que dera ao mar ao amanhecer, mas agora era para ele. — Sou instrutora porque é a única coisa que sei fazer e porque me faz feliz. E porque assim eu fico sozinha com pessoas bonitas, de madrugada, longe de tudo.

— E o que mais você faz, sozinha com pessoas bonitas?

Ela não respondeu com palavras. Inclinou-se e beijou-o. Foi um beijo que sabia a sal e a sol e a tudo o que ele deixara para trás. A mão dela subiu pelo peito dele, molhado, e pousou no lugar exato entre as omoplatas onde, duas horas antes, o tinha mandado soltar. Como se agora fosse ela quem precisasse que ele a segurasse.

Aquilo Que a Água Levou

Tomás envolveu-a pela cintura e puxou-a para mais perto, sentindo o calor da pele dela contra a própria, o contraste entre os dois corpos ainda úmidos e o sol que já começava a arder de verdade nas pedras. Larissa subiu para o colo dele sem romper o beijo, os joelhos apoiados no rochedo, os dedos enterrados no cabelo curto que ele mantinha por formalidade de escritório e que de repente parecia a coisa mais inútil do mundo.

— Não tem ninguém — sussurrou ela contra a boca dele, como se precisasse dizer em voz alta para acreditar. — A gente está só nós dois e o mar.

Ele beijou-lhe o pescoço, devagar, sentindo-a arrepiar sob os lábios. A cicatriz no tornozelo dela, descobriu, não era a única: havia outra, fina, na lateral das costelas, e ele a percorreu com as pontas dos dedos, com a mesma delicadeza com que ela o ensinara a rema. Cada ferida tinha uma história. Cada história tinha o mar dentro. Ela contava-as aos poucos, entre beijos, em frases curtas que ele guardava como quem guarda conchas.

O sol subiu e eles desceram — da pedra para um ponto de areia protegido pelo costão, onde a maré já não chegava e onde o vento se quebrava em murmúrios quentes. Larissa deitou-se e puxou-o pela mão, e ele foi, sem medo, sem o peso da década perdida, sem a rigidez que carregava como armadura. Houve um instante em que parou, olhou-a nos olhos, e perguntou, baixinho, se tinha certeza. Ela respondeu com um sorriso e com as duas mãos em seu rosto. Tenho. Desde que te vi chegar com essa cara de quem esqueceu como se vive.

E então aconteceu o que a maré sempre promete e raramente cumpre: o tempo deixou de existir. Houve só pele e sal e sol e o som do mar batendo, batendo, batendo contra as pedras num compasso que eles aprenderam a seguir. Não havia pressa. Não havia vergonha. Havia só o ritmo antigo daquele lugar que os criara e que os reaproximara, e a sensação estranha e doce de que nada estava perdido — só tinha ficado guardado, à espera, como uma onda perfeita que finalmente chegava.

Quando a maré baixou, por volta do meio-dia, eles saíram da enseada lado a lado, com as pranchas debaixo do braço e a areia ainda grudada em lugares que ninguém veria. O pescador distante já recolhera as redes. A garça seguia o mesmo curso. O mundo, lá fora, continuava exatamente igual.

— Amanhã, mesma hora? — perguntou Larissa, parada na borda da areia firme, com o sol a pino e o riso ainda na voz.

Tomás olhou para o mar, depois para ela, e sentiu, pela primeira vez em onze anos, que estava exatamente onde devia estar.

— Amanhã. E depois de amanhã. E todos os dias até eu reaprender a viver.

Ela riu, virou-se para a água, e mergulhou. Ele ficou olando, com o coração batendo no ritmo da maré, esperando o dia seguinte como quem espera uma onda que sabe que vai chegar.