Mariana não esperava ver aquele rosto no bar vazio do hotel. Dez anos se passaram desde o último beijo, desde a última briga, desde a última vez que Rafael a fez sentir que o mundo podia parar de girar. Ele estava encostado no balcão, girando um copo de uísque entre os dedos, e quando os olhos se cruzaram, algo elétrico percorreu o espaço entre eles.
O Choque do Acaso
Ela deveria ter seguido em frente. Deveria ter acenado educadamente e voltado para o quarto. Mas os pés a levaram até o banco ao lado dele, como se o corpo lembrasse de algo que a mente tentava esquecer.
— Mariana? — a voz dele era mais grave agora, mais madura. Os cabelos tinham alguns fios prateados nas têmporas, e a barba aparada de perto dava um ar de homem que se tornara mais interessante com o tempo.
— Rafael. Que coincidência.
Mentira. Não era coincidência nenhuma. Ambos estavam em São Paulo para a mesma conferência de arquitetura. O universo, às vezes, tinha um senso de humor cruel.
Ele pediu mais um copo e colocou na frente dela sem perguntar. Sabia o que ela bebia. Dez anos e aquele detalhe permanecia intacto, guardado em algum compartimento secreto da memória dele.
— Você está bem — ele disse, olhando-a de um jeito que fazia Mariana sentir o pescoço esquentar. — Está diferente. Melhor.
— O tempo passa pra todo mundo, Rafa.
— Passa, mas nem sempre transforma.
O silêncio que se seguiu não era desconfortável. Era denso. Carregado de dez anos de palavras não ditas, de imagens que visitavam nos momentos mais inoportunos, de um desejo que ambos insistiam em classificar como saudade.
As Palavras que Ficaram Presas
Uma hora depois, estavam numa mesa no canto. O uísque aquecia o sangue, mas a verdadeira embriaguez era aquela proximidade. Marana percebeu que Rafael não tirava os olhos dos lábios dela quando falava.
— Sabe o que eu mais lembro? — ele disse, inclinando-se para frente. — Não era o sexo. Era aquele momento antes, quando a gente ficava na cama e você ria da minha piada ruim e eu pensava que nunca ia encontrar aquilo de novo.
Mariana engoliu em seco. O Raphael dos vinte e poucos anos nunca teria dito algo assim. O homem à sua frente, porém, parecia ter perdido o medo de ser vulnerável.
— E encontrou? — ela perguntou, a voz mais baixa do que pretendia.
— Não.
A honestidade daquele monossílabo pesou como uma pedra no peito de Mariana. Ela também não tinha encontrado. Tivera relacionamentos, amores, noites boas. Mas nada que reproduzisse aquela sintonia particular, aquele jeito de os corpos se entenderem sem precisar de mapa.
— A gente terminou por um motivo idiota — ela murmurou.
— Por três motivos idiotas. O projeto de formatura, aquele fim de semana em Florianópolis e o meu ego de vinte e três anos.
Ela riu. Uma risada verdadeira, daquelas que vinham do fundo da barriga.
— Você era insuportável.
— Era. E você era teimosa demais pra me deixar consertar as coisas.
Os dedos dele encontraram os dela sobre a mesa. O toque foi leve, quase uma pergunta. Mariana não retirou a mão. Sentiu a temperatura familiar daquela pele, o jeito que os dedos de Rafael se entrelaçavam aos seus como se tivessem feito aquilo milhares de vezes — e tinham.
O Elevador
Ninguém lembrou quem sugeriu subir. Talvez tenha sido o olhar dele quando ela terminou o drink. Talvez tenha sido o jeito que ela se aproximou quando ele pagou a conta. O fato é que, quando as portas do elevador se fecharam, Rafael a pressionou contra a parede com uma urgência que tirou o ar dos pulmões dela.
Os lábios dele eram os mesmos, mas o beijo era diferente. Antes era fome de jovem, pressa, descoberta. Agora era deliberado, profundo, carregado de intenção. A língua de Rafael explorou a boca dela com a calma de quem sabe que tem tempo, mas não quer desperdiçar nenhum segundo.
As mãos de Mariana encontraram a gola da camisa dele e puxaram. Ele respondeu encaixando uma coxa entre as pernas dela, e o contato fez com que um gemido escapasse da garganta de Mariana direto na boca de Rafael.
— Ainda faz esse barulho — ele sussurrou contra os lábios dela, e o tom de voz era quase reverencial.
— E você ainda sabe como provocar.
O elevador parou no sétimo andar. As portas se abriram para um corredor vazio. Rafael pegou a mão dela e a puxou sem soltar o olhar. Quarto 714. O cartão passou na fechadura com um bipe que pareceu absurdamente alto no silêncio da noite.
Dez Anos em Uma Noite
A porta mal fechou quando Mariana o empurrou contra a parede mais próxima. Desta vez, ela que comandava. As mãos dela abriram os botões da camisa com uma praticidade que surpreendeu os dois, revelando o peito moreno de Rafael, com os mesmos sulcos musculares que ela lembrava, agora um pouco mais definidos pelo tempo.
Os lábios dela desceram pelo pescoço, pela clavícula, pelo peito. Rafael apoiou as costas na parede e deixou a cabeça cair para trás, os dedos entrelaçados nos cabelos de Mariana.
— Mari…
Ela não respondeu. Estava ocupada relembrando cada reação, cada ponto que fazia ele prender a respiração. A língua passou por um dos mamilos e ele chiou entre os dentes. O som era idêntico ao de dez anos atrás, e aquela continuidade a excitou de um jeito quase doloroso.
As mãos de Rafael desceram e encontraram a barra do vestido dela. Os dedos roçaram na pele da coxa, subindo lentamente, e Mariana percebeu que estava tremendo. Não de frio, não de nervosismo — de antecipação pura.
— Deita — ele disse com uma voz que não admitia discussão.
A cama era grande, de lençóis brancos e imaculados. Mariana se deitou de costas e Rafael se posicionou sobre ela, apoiando os antebraços dos lados da cabeça dela. Por um instante, ficaram apenas se olhando. O quarto estava iluminado apenas pela luz da cidade que entrava pela janela, e aquela meia-luz transformava o corpo de Rafael em algo quase pictórico.
— Tive tanta saudade — ele disse, e não era só do corpo. Mariana entendeu. Tinha saudade da intimidade, daquela galeria particular que só os dois conheciam.
Ela puxou-o para baixo e o beijou com tudo que tinha. O vestido subiu pelas coxas, e as mãos de Rafael deslizaram por baixo do tecido, encontrando a renda da calcinha. Os dedos percorreram a linha da barra, provocando, adiando, até que Marana arqueou os quadris em um pedido que não precisava de palavras.
Quando os dedos finalmente a tocaram, ela fechou os olhos. O corpo reagiu como se aquele toque fosse a chave de uma fechadura que ficou trancada por uma década. Rafael conhecia aquele mapa. Sabia o ritmo, a pressão, o momento exato de acelerar e de diminuir.
— Rafa, por favor…
— Por favor, o quê?
A provocação era antiga, mas a voz era nova. Mais densa. Mais controlada.
— Para de brincar.
Ele sorriu — aquele sorriso de canto que era a assinatura dele — e desceu pelo corpo dela beijando cada centímetro de pele que o vestido deixava exposto. A barriga contraiu sob os lábios dele. As coxas abriram-se em convite quando ele puxou a calcinha para baixo, com uma paciência que beirava a crueldade.
O Que o Tempo Não Apagou
A primeira vez que a língua dele a encontrou, Mariana agarrou os lençóis. A segunda vez, agarrou os cabelos dele. Na terceira, já não sabia mais o que fazer com as mãos, então puxou-o de volta para cima.
Rafael tirou o resto das roupas com uma eficiência que não existia nos vinte e poucos anos dele. Quando o corpo dele se posicionou sobre o de Mariana, pele contra pele, a temperatura do quarto pareceu subir dez graus.
Ela sentiu a ereção dele roçar na entrada e abriu mais as pernas, envolvendo a cintura dele com as coxas. Rafael entrou devagar, com os olhos fixos nos dela, e a expressão no rosto dele quando ficou completamente dentro era quase de alívio — como se estivesse segurando a respiração há dez anos.
O primeiro movimento foi longo, profundo, arrastado. Mariana soltou um gemido que não tentou disfarçar. O segundo movimento foi ainda mais lento, como se ele quisesse sentir cada milímetro daquele reencontro.
— Não vai durar muito se você continuar assim — ele advertiu com a voz comprometida.
— Então não continua assim.
Mariana invertceu a posição com uma agilidade que surpreendeu Rafael. Sentada sobre ele, com as mãos apoiadas no peito dele, ela começou a se mover no seu próprio ritmo. Lento no começo, sentindo cada contorno, cada textura. Depois mais rápido, quando o prazer começou a se acumular na base da espinha como uma onda que ganhava força.
Rafael segurava os quadris dela com as duas mãos, os polegares cavando na pele, os olhos alternando entre o rosto de Mariana e o ponto onde os corpos se uniam. A visão a fez corar, mas não a fez parar.
— Tô perto — ela avisou, a voz rachada.
— Então vai. Tô aqui.
Eram três palavras simples, mas carregavam tudo que Mariana precisava ouvir. Segurança. Presença. Permissão. O orgasmo a atingiu como uma maré cheia, ondulante e extensa, fazendo com que todo o corpo tremesse enquanto ela murmurava o nome dele sem querer.
Rafael não aguentou mais depois disso. Com dois movimentos profundos, veio dentro dela com um rugido abafado contra o pescoço de Mariana, os dentes apertando a pele onde o ombro encontra a clavícula — aquela mordida que era a assinatura sexual dele, a marca registrada que Mariana esqueceu que sentia falta até aquele segundo.
Ficaram assim por um tempo. Ela deitada sobre ele, os corpos ainda conectados, o suor secando na pele, a respiração voltando ao normal aos poucos.
A Manhã Seguinte
Quando a luz da manhã entrou pela janela, Mariana acordou com o braço de Rafael atravessado sobre sua cintura. Ele ainda dormia, e ela aproveitou para observar. As rugas de expressão ao redor dos olhos, o peito subindo e descendo ritmicamente, a boca ligeiramente aberta.
Ela pensou em levantar, se vestir e sair antes que ele acordasse. Repetir o script de dez anos atrás, em que a fuga era mais fácil que a conversa.
Mas não se moveu.
Rafael abriu os olhos lentamente, como quem emerge de um sonho bom. Viu Mariana e sorriu — não o sorriso de canto, mas um sorriso inteiro, sem defesas.
— Bom dia — ele disse, a voz ainda grossa de sono.
— Bom dia.
— Vai correr?
A pergunta foi direta, sem acusação. Mariana considerou mentir, mas o olhar dele pedia honestidade.
— Estou pensando em não correr.
Rafael puxou-a para mais perto e beijou o topo da cabeça dela.
— Então fica. O café daqui é bom. E depois a gente pode conversar sobre aquele projeto que a gente nunca fez junto.
Mariana sorriu contra o peito dele. Talvez dez anos não fosse tempo demais para recomeçar. Talvez fosse exatamente o tempo certo.