A Barraca do Acampamento — Quando o Zíper Trancou o Mundo
O grupo se dividiu no quilômetro quatro da trilha. Catarina percebeu quando os risos à frente sumiram no emaranhado de cipós e o silêncio tomou conta, pesado, úmido, cheio de insetos que não paravam de zunir. Parou. Olhou para trás. Ninguém. Olhou para os lados: mata fechada, samaúma com raízes expostas como veias, e um cheiro de terra molhada que entrava pelas narinas e ficava. — Lucas? Nenhuma resposta. Ela respirou fundo, tirou a garrafa da mochila e bebeu até a última gota, convencida de que o caminho de volta era reto e que em dez minutos estariam no acampamento.
Lucas apareceu vinte minutos depois, com arranhões no antebraço e a camisa colada ao peito de suor. — Saí da trilha pra tirar foto de uma arara e perdi vocês — disse ele, sem arrepio. — Tentei seguir a voz, mas o mato engoliu tudo.
Foram os únicos dois que erraram o caminho. O resto do grupo, segundo Lucas, já devia estar montando as barracas na margem do rio. O sol caía rápido entre as copas, e Catarina sabia — porque havia feito aquele trecho antes — que pelo menos quarenta minutos a separavam do acampamento. Quarenta minutos de trilha na penumbra, sem lanterna, com lama até o tornozelo. Ela olhou para Lucas e pela primeira vez desde que o conhecera, há dois anos no escritório de arquitetura, sentiu algo que não era irritação profissional.
— Vamos devagar — disse ela. — Se escurecer antes de chegarmos, paramos no primeiro plano que encontrar.
A trilha que sumiu no mato
Caminharam lado a lado. Lucas ia na frente, abrindo caminho com um galho, e Catarina seguia de perto — mais perto do que o necessário, mas a trilha era estreita demais para qualquer outra distância. A cada passo, o ombro dela roçava no dele. A cada roçada, um frêmito elétrico subia pelo braço e instalava-se no estômago. Catarina culpava o cansaço. Culpava a sede. Culpava qualquer coisa que não fosse a realidade: dois anos de olhares disfarçados, de piadas no corredor que duravam um segundo a mais que o necessário, de reuniões em que ela sentia os olhos dele nos decotes e fingia não sentir.
O sol morreu. O mato ficou cinzento, depois roxo, depois preto. O som mudou — os insetos diminuíram, e no lugar deles veio o murmúrio distante de água corrente. — O rio fica ali — apontou Lucas, sem conseguir ver a mão à frente. — Se a trilha abrir, descemos até a margem e acampamos ali.
Encontraram uma clareira cinquenta metros depois. Era um plano de areia fina entre duas raízes de jequitibá, largo o bastante para uma barraca e pouco mais. Catarina jogou a mochila no chão e ficou de pé, ofegante, com a camisa encharcada de suor transparente nos ombros. Lucas acendeu a lanterna de cabeça — o único objeto útil que trouxera na mochila além da câmera — e o cone de luz bateu no rosto dela. Ele sustentou o olhar por um tempo maior do que o conforto permitia, e ela não desviou.
— Só temos uma barraca — disse Catarina. — O Marcelo ia dividir comigo, mas…
— Eu sei — respondeu Lucas. — Eu ia ficar com o Fábio.
O silêncio que se seguiu carregava peso demais para duas pessoas que se diziam apenas colegas.
O mundo dentro da barraca
Montaram a barraca com as mãos trêmulas de cansaço e frio. O modelinho era para duas pessoas, mas dois metros por um metro e meio não é espaço para dois estranhos — e Catarina e Lucas, por mais que fingissem o contrário, não eram exatamente estranhos. O zíper fechou o mundo lá fora. Dentro, havia dois colchonetes finos, dois sacos de dormir, a lanterna pendurada no teto por um mosquetão, e o som do rio que agora se ouvia com uma clareza que fazia parecer que passava por dentro da barraca.
Catarina sentou-se e tirou as botas. Tinha areia nos pés, lama nos tornozelos, e as unhas rachadas de segurar raízes. Quando levantou os olhos, Lucas estava olhando para ela. Não para os pés — para ela. Com aquela intensidade que ela conhecia das reuniões, dos almoços de sexta, das vezes em que passavam pela mesma porta e um cedia o passo ao outro e ninguém dizia nada.
— Você tá tremendo — observou ele.
Ela percebeu que sim. O suor esfriara, a noite caíra de verdade, e dentro da barraca a temperatura caía junto com o ar. Lucas tirou o casaco de flanela e estendeu. Catarina pegou, e quando os dedos dele tocaram os dela, nenhum dos dois soltou. Ficaram assim — ele segurando a ponta do casaco, ela segurando a outra, os dedos entrelaçados sem que ninguém decidisse entrelaçá-los.
— Catarina — disse ele, com a voz mais baixa do que o rio permitia. — Eu preciso te falar uma coisa faz tempo.
— Então fala.
— Não aqui. Assim. Sem olhar. Sem ter certeza de que você quer ouvir.
Ela puxou a mão dele em vez de responder. Puxou com firmeza, e Lucas caiu para a frente, os joelhos no colchonete, o rosto a centímetros do dela. O cheiro dele era madeira, suor e algo amadeirado que vinha do casaco. Catarina fechou os olhos e beijou-o.
O calor entre dois corpos
O primeiro beijo foi curto — um choque de duas pessoas que descobrem que o chão debaixo delas é o mesmo. Lucas recuou o suficiente para olhá-la, e o que viu nos olhos dela apagou qualquer dúvida. O segundo beijo foi diferente: longo, fundo, com a pressão de meses de silêncio dissolvendo-se na boca de cada um. As mãos de Lucas desceram pelas costas dela e encontraram o fecho da calça. Catarina respirou fundo contra o pescoço dele, e o som que fez — meio suspiro, meio confirmação — viajou pelo osso e instalou-se na espinha de Lucas como uma ordem.
Ele tirou a camisa dela com cuidado, deslizando o tecido molhado pelos ombros, e quando os seios apareceram — pequenos, com os mamilos duros de frio e desejo — Lucas parou um segundo. Não de hesitação, mas de reverência. Passou os polegares de leve, como quem prova a temperatura de algo que pode queimar. Catarina arqueou as costas e puxou-o para mais perto.
A barraca estava pequena demais para ceremony. Os corpos se ajustaram no espaço apertado: ele por cima, ela por baixo, os joelhos dobrados para caber entre as paredes de lona. Lucas beijou o pescoço, a clavícula, o peito, descendo com uma lentidão que a deixava maluca — cada beijo era uma pergunta, cada resposta vinha no gemido que Catarina não conseguia segurar. Quando a boca dele chegou ao ventre, as mãos dela agarraram o cabelo de Lucas e puxaram para cima. — Não — sussurrou ela. — Agora. Assim.
Ele entrou nela com a naturalidade de quem esperou aquele momento por tempo demais. Catarina soltou o ar de uma vez, como se estivesse segurando a respiração desde que o conheceu, e o som que ecoou na barraca — baixo, longo, inegável — misturou-se ao do rio lá fora. Lucas moveu-se com cuidado no começo, testando cada reação, cada movimento de quadril que ela devolvia. Quando ela o envolveu com as pernas e o puxou para o fundo, ele perdeu a compostura e entregou-se ao ritmo que os dois vinham construindo desde a clareira.
— Catarina — repetiu ele, contra a orelha dela, como se o nome fosse a única palavra que existia naquele mundo de dois metros quadrados.
Ela não respondeu com palavras. Respondeu com o corpo — com o aperto, com a respiração que encurtava, com as unhas cravadas nas costas dele e a boca mordendo o ombro para não gritar. O orgasmo veio em ondas, lento e intenso, como o próprio rio que os cercava, e Lucas seguiu logo depois, enterrado nela, com os olhos fechados e o nome de Catarina nos lábios pela última vez antes de desabar ao lado.
Amanhecer de neblina e silêncio
Dormiram enroscados, com os sacos de dormir abertos e sobrepostos, porque nenhum dos dois queria a barreira de tecido entre os corpos. A lanterna apagara sozinha durante a noite, e quando Catarina acordou, a barraca estava banhada naquele cinza-azulado que precede o nascer do sol e faz tudo parecer terreno e sagrado ao mesmo tempo. O rio cantava na mesma frequência. Os pássaros ainda dormiam.
Lucas estava deitado de costas, respirando fundo, com um braço sobre a cintura dela. Catarina aproveitou aquele minuto — talvez o único em que podia olhar sem ser vista — e memorizou: a linha do queixo, o peito subindo e descendo, os dedos grossos descansando na curva do quadril. Depois, com cuidado, levantou-se, vestiu a camisa e abriu o zíper da barraca.
A clareira estava coberta de orvalho. O rio brilhava com a primeira luz, estreito e manso. O ar era frio e limpo, cheirava a mato e pedra molhada. Catarina ficou parada ali, descalça na areia, e sentiu — pela primeira vez em muito tempo — que o mundo tinha o tamanho certo.
Lucas apareceu atrás dela, com a flanela no ombro, os cabelos desgrenhados. — Bom dia — disse ele, e a voz era a mesma de sempre, mas os olhos não. Os olhos eram novos.
— O grupo deve estar procurando a gente — disse Catarina, sem virar.
— Provavelmente. Mas eles têm o mapa. E a trilha. E o celular com GPS. Nós temos o rio.
Catarina virou-se e sorriu. Lucas tirou a flanela e cobriu os ombros dela de novo, e os dedos voltaram a se entrelaçar como na noite anterior, só que agora à luz do dia, sem sombras, sem desculpas. Desceram juntos até a margem do rio, pisando nas pedras lisas, e quando a água gelada tocou os tornozelos, Catarina lembrou-se da maré que encheu em outros contos e pensou que toda água tem esse dom — de empurrar pessoas juntas, de tirar o chão, de revelar o que está debaixo.
Encontraram o acampamento uma hora depois. O grupo estava tomando café, preocupado mas não desesperado. Marcelo perguntou onde tinham dormido. Lucas respondeu: — Na barraca. A trilha somiu de noite. Ninguém perguntou mais nada. Mas quando Catarina passou por Lucas no caminho para pegar uma caneca, o ombro dela roçou no dele — a mesma roçada da trilha — e os dois sorriram, baixinho, sem que ninguém visse.
Naquela noite, de volta à cidade, Lucas mandou uma mensagem: — Esqueci a flanela na barraca. Vou ter que te pedir outra. Catarina respondeu: — Eu guardo. Você vem buscar.
E ela guardou. E ele voltou. E o rio, lá no acampamento, continuou correndo como se nada tivesse acontecido — como se tudo tivesse acontecido exatamente como devia.
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