Morava no terceiro andar de um prédio antigo no centro de Lisboa há dois anos e nunca tinha cruzado mais do que três palavras com a mulher do apartamento 302. Camila era assim: olhos baixos no corredor, meio sorriso educado, cabelo preso sempre do mesmo jeito. Até que uma sexta-feira à noite mudou tudo.
O Corredor
Eram quase vinte e três horas quando cheguei do jantar com amigos. O elevador estava quebrado — de novo — e subi as escadas com a pasta debaixo do braço, cansado. Ao virar o corredor do meu andar, vi a porta do 302 entreaberta e Camila agachada no chão, tentando encaixar uma maleta de viagem que claramente não passava pela fresta.
— Precisa de ajuda? — perguntei, parando a alguns passos.
Ela levantou os olhos. Tinha o rosto levemente flushed, um fio de cabelo escapando da coça, e usava um vestido leve de algodão que chegava pouco acima dos joelhos. Naquele contexto, com a luz amarelada do corredor, parecia uma cena de filme.
— A fechadura travou — disse ela, sem graça. — Tentei de tudo, mas não consigo nem puxar a maleta para dentro.
Aproximei-me. O cheiro era sutil — algo floral, talvez jasmim, misturado com o aroma de vinho tinto. Olhei para a fechadura, testei com a mão. Realmente travada.
— Tenho ferramentas em casa. Um minuto.
Voltei com uma chave-fenda e uns grampos. Enquanto mexia na fechadura, ela ficou ao meu lado, perto o suficiente para eu sentir o calor do corpo. Quando a porta finalmente cedeu, ela soltou um suspiro que pareceu carregar mais do que alívio.
— Muito obrigada, Leonardo. Desculpe, sei o seu nome porque vi no correio. Sou Camila.
— Seja bem-vinda ao mundo das apresentações oficiais — brinquei.
Ela riu. Um riso baixo, genuíno, que me pegou desprevenido.
O Convite
— Pelo menos me deixe oferecer um vinho — disse ela, encostada na porta agora aberta. — É o mínimo que posso fazer. Acabei de chegar de uma viagem de trabalho e estava morrendo por uma taça.
Eu deveria ter dito não. Era sexta, estava cansado, e tinha aquele instinto discreto que me fazia evitar envolvimentos com vizinhos. Mas algo nos olhos dela — uma abertura inesperada, uma vulnerabilidade que não era fraqueza — me fez aceitar.
O apartamento 302 era quase um espelho do meu, mas completamente diferente na alma. Onde eu tinha livros empilhados e móveis funcionais, ela tinha plantas, quadros com cores vibrantes, tecidos jogados com intenção sobre sofás e cadeiras. Uma iluminação quente de abajures. Jazz baixo saindo de uma coluna pequena.
Ela serviu o vinho — um tinto português bom — e se sentou na ponta do sofá, pernas cruzadas, me olhando por cima da taça.
— Sabe de uma coisa? — disse ela. — Dois anos morando lado a lado e essa é a primeira vez que conversamos direito. Isso é quase ridículo.
— Quase.
— Você sempre me pareceu alguém que gostava de ficar no próprio mundo.
— E você sempre me pareceu alguém que não queria ser incomodada.
Ela sorriu, girando o vinho na taça. — Talvez a gente estivesse os dois errados um sobre o outro.
O silêncio que seguiu não foi constrangedor. Era denso, carregado de uma tensão que de repente fazia todo o sentido — como se aqueles dois anos de cumprimentos mudos tivessem sido uma longa preparação para aquele momento.
A Primeira Fronteira
Fui eu que me aproximei. Não sei exatamente o que me moveu — talvez o vinho, talvez a iluminação, talvez o cansaço que me tirou os filtros. Sentei ao lado dela no sofá, perto demais para ser casual, e ela não recuou.
— Camila — disse eu, olhando para ela.
— Leonardo — respondeu ela, e o jeito que pronunciou meu nome soou como um convite.
Levantei a mão e toquei o fio de cabelo que escapara da coça, afastando-o do rosto dela. Ela fechou os olhos por um segundo, um suspiro quase inaudível escapando pelos lábios entreabertos. Quando os abriu de novo, havia algo lá que não precisava de palavras.
Beijei-a. Suave no começo, testando. Os lábios dela eram macios, com gosto de vinho e algo doce. Ela retribuiu com a mesma cautela, como se também estivesse mapeando território desconhecido. Mas a lentidão durou pouco. Em segundos, a mão dela estava na minha nuca, puxando-me mais para perto, e o beijo se aprofundou — línguas se encontrando, respiração mudando de ritmo.
Meu braço envolveu a cintura dela e a puxei para o meu colo. Ela sentou de frente, pernas de cada lado das minhas, o vestido de algodão subindo pelas coxas. Pude sentir o calor entre nós, a pressão do corpo dela contra o meu, e a certeza absoluta de que aquilo não era um acidente.
O Desabotoar
As mãos dela foram para a gola da minha camisa e começaram a desabotoar, uma a uma, com uma calma que era quase torturante. Cada botão liberado era seguido por um toque nos meus lábios, no pescoço, na clavícula. Quando a camisa ficou aberta, ela afastou-se o suficiente para me olhar — os olhos escuros, brilhantes, avaliando.
— Não é como eu imaginava — murmurou ela.
— Imaginou? — perguntei, com um meio sorriso.
— Todo mundo imagina o vizinho — disse ela, e a franqueza disso me surpreendeu. — Mas é melhor.
Levantei as mãos até a alça do vestido e deslizei uma delas pelo ombro dela, deixando o tecido cair levemente. A pele era lisa, quente, e quando minha boca encontrou o ombro exposto, ela soltou um gemido baixo que ressoou no peito.
Levantei-a ainda no meu colo e ela envolveu as pernas ao redor da minha cintura enquanto eu a carregava para o quarto. O quarto era pequeno, com a cama desfeita e uma mala aberta no chão — restos da viagem que importavam cada vez menos.
Deitei-a na cama e ela puxou o vestido pelo bainha, tirando-o de uma vez. Por baixo, usava apenas um conjunto de renda preta que contrastava com a pele morena. Eu a olhava e ela me deixava olhar, sem pressa, sem vergonha — apenas aquele silêncio denso de novo, agora carregado de desejo explícito.
A Quietude Intensa
Me tirei o que restava da roupa e me deitei sobre ela, apoiando o peso nos antebraços. O contato pele com pele foi eletrizante — ela arqueou as costas logo de saída, como se aquele toque fosse algo que vinha esperando há muito tempo.
Beijei o pescoço, a clavícula, o seio por cima da renda, e ela respirava de um jeito que me dizia exatamente o que funcionava — inspirações curtas, mãos apertando meus ombros, quadris se movendo sutilmente contra os meus.
Quando tirei a renda, explorei cada centímetro com a boca e com as mãos. Ela era responsiva de um jeito que não era performance — era entrega genuína. Gemidos que não tentavam ser bonitos, só eram. Movimentos que pediam mais sem precisar falar.
— Leonardo — sussurrou ela, e meu nome na boca dela agora soava diferente. Mais urgente.
Deslizei uma mão entre nós e encontrei-a molhada, pronta. Ela prendeu a respiração quando toquei, depois soltou um gemido longo quando comecei a movimentar os dedos lentamente, com pressão controlada. A mão dela foi para o meu pulso, não para parar, mas para guiar — mais rápido, mais firme, exatamente ali.
Quando a senti se aproximando, diminuí o ritmo de propósito. Ela abriu os olhos e me olhou com uma mistura de admiração e frustração que me fez sorrir.
— Você é cruel — disse ela, ofegante.
— Paciente — corrigi.
O Encontro
Arrumei uma camisinha da carteira — velho hábito que ela pareceu aprovar com um aceno de cabeça — e me posicionei entre as pernas dela. Ela me olhou nos olhos enquanto eu entrava, devagar, centímetro por centímetro. A expressão dela mudou gradualmente: surpresa, adaptação, prazer. Quando estava completamente dentro, ela soltou o ar como se estivesse segurando a respiração há minutos.
— Meu Deus — murmurou.
Comecei a me mover com um ritmo deliberado, nem apressado nem lento demais. O quarto estava quente e o som dos nossos corpos, da respiração, dos gemidos abafados preenchia o espaço. Ela envolveu as pernas nas minhas costas, prendendo-me, e cada vez que eu afundava mais fundo, ela apertava mais forte.
A velocidade aumentou naturalmente, como uma onda que ganha volume. Ela passou as mãos pelas minhas costas, pelas minhas nádegas, puxando-me para mais perto como se quisesse me absorver. Os gemidos dela ficaram mais altos, mais descontrolados, e eu senti os próprios limites se aproximando.
— Junto — disse ela, como se lesse meus pensamentos.
E foi junto. O orgasmo dela veio primeiro — um espasmo que percorreu todo o corpo, com as pernas tremendo e as unhas cravadas nos meus ombros. Segundos depois, o meu chegou, intenso e prolongado, e eu enterrei o rosto no pescoço dela enquanto o corpo se descarregava.
O Depois
Ficamos deitados em silêncio por um tempo que não soube medir. O jazz ainda tocava da sala, baixinho. A janela do quarto estava aberta e entrava uma brisa morna de noite lisboeta.
Ela tinha a cabeça no meu peito e desenhava círculos preguiçosos na minha pele com a ponta dos dedos.
— Sabe o que é engraçado? — disse ela afinal. — Ainda somos vizinhos.
— Ainda somos.
— Isso pode complicar as coisas.
— Ou simplificar.
Ela levantou a cabeça e me olhou com um sorriso que era metade travesso, metade genuíno.
— Amanhã a gente volta a se cumprimentar no elevador como se nada tivesse acontecido?
— Se o elevador funcionar — disse eu.
Ela riu daquele jeito de novo — baixo, genuíno — e voltou a se acomodar no meu peito. Lá fora, ouvi um carro passar na rua abaixo. Dentro do quarto, o mundo era pequeno, quente e perfeitamente suficiente.