A Mensagem Errada
O celular de Letícia vibrou na bancada da cozinha enquanto ela cortava limão para a caipirinha. Era sábado à noite, o apartamento estava cheio de gente — amigos do trabalho, alguns Known da faculdade, música alta vindo da caixa de som que Rafael tinha trazido. Ela enxugou as mãos no avental e olhou a tela.
Não era pra ela. Era uma mensagem no grupo dos homens, aquela conversa que Marcelo tinha criado por acidente adicionando ela junto com os cinco caras do escritório. Normalmente ela saía do grupo, mas esqueceu. E agora, na tela, letras grandes demais pra ignorar:
“O Felipe tá que tá: não aguento mais olhar pra Letícia naquela saia hoje. A mulher não faz ideia do que faz comigo.”
Letícia largou a faca. Leu de novo. O dedo tremia — não de raiva, não de constrangimento. De outra coisa. Algo quente subiu pelo peito e se instalou na base da garganta. Felipe. O Felipe. O cara quieto do setor de projetos, que sempre trazia café pra ela sem pedir, que sorria com os olhos antes de usar a boca, que sentava do lado dela nas reuniões como se fosse o lugar mais natural do mundo.
Ela nunca tinha pensado nele daquele jeito. Ou será que tinha? As vezes que ele se inclinava pra ver o monitor dela e o cheiro de camisa limpa e perfume amadeirado invadia o espaço entre os dois. A vez que ele segurou a porta do elevador e os dedos encostaram nos dela por um segundo a mais do que necessário. Tudo veio de uma vez, como fichas de dominó caindo.
Letícia respirou fundo, colocou o celular no bolso do avental e voltou pra festa. Mas agora cada vez que olhava pra Felipe — do outro lado da sala, conversando com o Thiago, a mão segurando uma long neck —, era como ver alguém pela primeira vez e pela centésima simultaneously.
O Lugar Certo
Três horas depois, a festa tinha evaporado. Restavam Letícia, Felipe e Marcelo, que desabou no sofá e dormiu em menos de dois minutos, roncando suavemente. A música tinha acabado, a lua entrava pela janela da varanda e os dois estavam recolhendo copos e garrafas em silêncio.
— Você não precisa ajudar — disse Letícia, ajoelhando-se pra pegar guardanapos do chão. — Eu que fiz a festa, eu que limpo.
Felipe se agachou junto dela, os dois joelhos no chão da sala, e os ombros quase tocaram.
— Eu quero. — A voz dele era baixa, quase sussurrada. — Sempre quis ajudar, na verdade. Com tudo.
Letícia sentiu o coração acelerar. Havia um peso diferente naquela frase, e os dois sabiam. Ela olhou pra ele. Na penumbra da sala com apenas a luz da rua entrando pelas cortinas, os olhos escuros de Felipe brilhavam com algo que ela nunca tinha permitido enxergar antes. Ou que nunca tinha tido coragem de reconhecer.
— Felipe…
— Eu sei — ele interrompeu, com um sorriso triste. — Não precisa dizer nada. Eu sei que você viu a mensagem.
O estômago de Letícia gelou. Ele sabia. Como sabia?
— O Marcelo me mandou mensagem pedindo desculpa dez minutos depois. Disse que tinha escrito no grupo errado. — Felipe riu, mas era um riso amargo, curto. — Eu passei a noite inteira tentando agir normal, esperando você me dar um tapa ou me mandar embora.
— E por que não me mandou embora? — a voz dela saiu rouca.
Felipe ajeitou uma mecha de cabelo dela atrás da orelha. O toque durou um segundo, mas deixou um rastro quente na pele de Letícia que durou muito mais.
— Porque eu queria estar aqui. Mesmo que fosse a última vez. Mesmo que você nunca quisesse me ver de novo.
A Primeira Vez
Letícia não lembra quem beijou quem primeiro. Lembra que estava de joelhos no chão da sala, com guardanapos usados na mão, e de repente a mão livre de Felipe estava na nuca dela e a boca dele estava ali, a centímetros, pedindo permissão com a respiração. E ela não disse não — fechou os olhos e deixou o espaço entre os dois desaparecer.
O beijo foi devagar. Como se ele tivesse esperado uma vida inteira por aquele momento e quisesse que durasse outras tantas. Os lábios de Felipe eram macios, firmes, e sabiam a cerveja e a algo doce — talvez a caipirinha que ela tinha feito. A mão dele subiu pela nuca e se enroscou no cabelo dela, puxando com uma delicadeza que fez Letícia suspirar contra a boca dele.
Os guardanapos caíram no chão. As mãos dela encontraram o peito de Felipe, sentindo o calor através da camisa de linho, o coração dele batendo tão rápido quanto o seu. Ele a puxou para cima e os dois ficaram de pé no meio da sala desarrumada, se beijando como se o mundo fora daquela janela tivesse deixado de existir.
— Eu penso em você todo dia — ele murmurou entre beijos, a voz rouca, vulnerável de um jeito que ela nunca tinha ouvido. — Quando você passa pelo corredor. Quando você ri. Quando você morde a caneta na reunião de segunda.
— Cala a boca — ela disse, puxando a camisa dele pra fora da calça. — Cala a boca e me beija.
Ele obedeceu. As mãos de Felipe desceram pela cintura dela, encontraram a barra da saia e subiram por baixo do tecido, acariciando as coxas com uma pressão controlada que fazia Letícia arquear o corpo contra ele. Ela sentiu os dedos粗 — não, calosos — dele na pele macia da parte interna das coxas e um gemido escapou antes que pudesse conter.
— Vamos pra outra sala — ela sussurrou, olhando pro Marcelo que roncava no sofá a três metros deles.
Felipe a guiou pelo corredor até o quarto dela, e assim que a porta fechou, algo mudou. A delicadeza deu lugar a uma urgência que vinha se acumulando há meses, talvez anos. Letícia empurrou ele contra a porta e o beijou com fome, as mãos trabalhando nos botões da camisa dele com uma impaciência que a fez rir de si mesma.
— Deixa — Felipe disse, abrindo os botões sozinho. A camisa caiu no chão e Letícia finalmente viu o corpo que ele escondia embaixo de camisas sociais e blazers. Ombros largos, peito definido, uma linha de pelos escuros descendo do abdômen até desaparecer dentro da calça. Ela tocou aquela linha com a ponta dos dedos e sentiu o abdômen dele contrair.
— Você é… — ela começou.
— Cuida do que come e faço crossfit três vezes por semana — ele disse, com um sorriso tímido que não combinava com a situação. Era estranhamente adorável.
Letícia tirou a blusa por cima da cabeça. Não usava sutiã — tinha vestido um cropped apenas pra festa. Os olhos de Felipe percorreram o corpo dela com uma reverência que fez o estômago dela revirar. Ele não olhava com gula. Olhava com admiração, como quem finalmente vê de perto algo que só conhecia de longe.
Ele se inclinou e beijou o pescoço dela, descendo lentamente até a clavícula, até o topo dos seios. A boca quente, a língua traçando círculos que faziam Letícia prender a respiração. As mãos dele seguravam a cintura dela com firmeza, como se ela pudesse escapar a qualquer momento e ele não pudese permitir.
— Eu esperei tanto — ele murmurou contra a pele dela. — Você não faz ideia.
Letícia o puxou pelos cabelos e o beijou de novo. As mãos dela desceram pelo peito, pelo abdômen, até encontrar o cós da calça. Ele chupou o ar entre os dentes quando os dedos dela passaram por cima da ereção, sentindo o volume através do tecido.
— Quanto tempo? — ela perguntou, a boca colada na dele.
— O quê?
— Quanto tempo você se tocava pensando em mim?
O gemido que escapou da garganta de Felipe não foi de prazer. Foi de rendição. A verdade finalmente dita em voz alta, sem proteção.
— Desde o primeiro dia. Desde que você entrou na sala de reunião com aquele vestido amarelo e perguntou onde era o café.
Letícia sorriu. Empurrou ele até a cama e ele caiu sentado na beirada, olhando pra ela de baixo pra cima como se ela fosse algo digno de culto. Ela se aproximou, posicionou-se entre as pernas dele, e ele a abraçou pela cintura, encostando a testa no ventre dela.
Depois do Amanhecer
Muito tempo depois — depois das roupas espalhadas pelo chão, depois dos lençóis amassados e dos sussurros que pareceram orações, depois de Letícia arquear as costas e cravar as unhas nos ombros dele enquanto o mundo explodia branco por trás das pálpebras — os dois estavam deitados lado a lado, o teto do quarto iluminado pelas primeiras luzes do domingo.
Felipe traçava linhas invisíveis no braço dela com a ponta do indicador. Um silêncio confortável, do tipo que só existe entre duas pessoas que acabaram de se revelar completamente uma à outra.
— O Marcelo viu a gente sair da sala? — Letícia perguntou, olhando pro teto.
— Se viu, vai achar que foi conspiração dele. Vai contar pra todo mundo no escritório que foi o cupido.
— Que era o cupido — ela corrigiu, virando a cabeça pra olhar ele. — Passado. Porque isso aqui não vai se repetir.
Felipe parou de traçar as linhas. O rosto dele endureceu por um segundo — e então viu o sorriso nos cantos da boca de Letícia.
— Você é cruel.
— Mentira. Você adora.
Ele se virou de lado, apoiou a cabeça na mão e a olhou com aquele jeito que fazia o peito dela apertar. Os cabelos bagunçados, a barba por fazer raspando o travesseiro, os olhos meio cerrados de sono e satisfação.
— Na segunda — ele disse —, quando você passar pelo meu corredor, eu vou te ver de um jeito completamente diferente.
— Você já me via desse jeito.
— Agora você sabe. Isso muda tudo.
Letícia pensou nisso. Pensou na segunda-feira, no escritório, nos corredores que os dois compartilhavam todos os dias. Pensou nas reuniões, nos cafés, nas conversas de elevador. Tudo ia ter uma camada nova agora — uma camada quente, secreta, que só os dois conheciam.
Ela se aproximou e o beijou. Foi um beijo de manhã, diferente dos da noite anterior. Sem urgência, sem desespero. Macio, preguiçoso, cheio de promessas que nenhum dos dois precisava verbalizar.
— Você ainda vai me trazer café? — ela perguntou contra os lábios dele.
— Todo dia. — Ele sorriu. — Mas agora eu vou lembrar do gosto da sua boca cada vez que você tomar o primeiro gole.
Letícia riu, escondeu o rosto no peito dele e sentiu os braços de Felipe a envolverem com uma firmeza que dizia tudo o que as palavras não conseguiam. Lá fora, São Paulo acordava devagar. O sol subia. O domingo começava. E algo que tinha esperado meses pra acontecer finalmente tinha encontrado o lugar certo.
Não foi a mensagem errada. Foi a mensagem certa, no momento errado, que encontrou a pessoa certa no momento em que ela finalmente estava pronta pra ler.