maio 31, 2026

A Livraria de Madrugada — Entre Páginas e o Desejo

A Livraria de Madrugada — Entre Páginas e o Desejo

O relógio da parede marcava duas da manhã quando Mariana empurrou a porta da Livraria Noite & Dia. O sino de latim tilintou, fraco, quase engolido pela chuva que castigava a Rua da Moeda. Ela sacudiu o casaco, deixou algumas gotas caírem sobre o piso de madeira velha e respirou fundo. O cheiro de papel envelhecido, café e algo adocicado — talvez canela — envolveu-a como um abraço.

A livraria funcionava vinte e quatro horas. Era um daqueles lugares que pareciam existir apenas para quem não conseguia dormir. Mariana se encaixava perfeitamente nesse perfil. Três noites sem pregar os olhos, o projeto de arquitetura engolido por prazos impossíveis, e a única coisa que a fazia sentir algo próximo de paz era percorrer corredores estreitos repletos de livros que ninguém mais lia.

Ela conhecia cada seção de cor. Ficção científica à esquerda da entrada. Poesia no fundo, ao lado de uma poltrona desgastada cujo couro já tinha visto décadas. Foi para lá que seguiu, com os dedos arrastando-se pelas lombadas, sentindo a textura de cada capa — lisa, áspera, envernizada, fosca.

O Desconhecido na Poltrona

A poltrona estava ocupada. Um homem sentado com as pernas cruzadas, um livro aberto no colo, os óculos escuros — ridículos para aquela hora, ela pensou — empurrados sobre a testa. Ele usava uma camisa de linho amassada, manga arregaçada até o cotovelo, e tinha os cabelos cacheados presos num coque frouxo. Não levantou os olhos quando ela se aproximou, mas um meio-sorriso surgiu no canto da boca dele, como se soubesse que estava sendo observado.

Mariana ia seguir em frente. Era o que fazia sempre — ignorar, contornar, seguir sozinha. Mas algo naquela imagem a fez parar. O livro que ele segurava era um exemplar de Cartas de Amor de um Português, uma edição rara dos anos 40, que ela mesma tinha procurado durante meses.

“Essa edição tem uma dedicatória na página 47”, disse ela, apontando com o queixo. “O tradutor escreveu para a amante dele. Nunca foi publicada em lugar nenhum.”

Ele finalmente levantou os olhos. Castanhos, quase dourados na luz fraca da luminária de mesa. O sorriso se alargou, sem pressa.

“Você conhece esse livro.”

“Conheço a história por trás dele.”

“Então sente aqui e me conte.” Ele bateu de leve no braço da poltrona, que era larga o suficiente para dois — se não fossem exigentes com espaço pessoal.

Mariana hesitou apenas um segundo. A chuva lá fora parecia dizer que não havia pressa em ir a lugar nenhum. Ela se acomodou ao lado dele, o braço roçando no tecido fresco da camisa de linho, e começou a falar sobre poetas malditos e amantes secretos.

Páginas que Escurecem

Uma hora se passou. Depois outra. O livro tinha sido abandonado sobre a mesinha de centro, ao lado de duas xícaras de café que o atendente trouxera sem que nenhum dos dois pedisse. Mariana percebeu que tinha falado demais — sobre a faculdade, sobre o projeto que a consumia, sobre o ex-noivo que trocara a vida a dois por uma vaga em Londres. Coisas que não contava a ninguém.

Gael — era esse o nome dele — ouvia com uma atenção que a desconcertava. Não interrompia. Não oferecia soluções. Apenas mantinha os olhos nos dela, e de vez em quando tocava levemente o joelho de Mariana quando algo que ela dizia parecia doer mais.

“Você foge para livros quando a realidade aperta”, disse ele, numa constatação simples.

“E você foge para livrarias de madrugada usando óculos escuros.”

Gael riu. Um riso baixo, de garganta, que fez o ar entre eles vibrar. Tirou os óculos escuros e os dobrou, guardando no bolso da camisa.

“Sensibilidade à luz. Não é charme, é condição médica.”

“E o coque? Também é condição médica?”

“Isso é preguiça de pentear.”

Ela riu também. E quando o riso diminuiu, percebeu que estavam mais perto do que antes. Os ombros se tocavam. O calor que vinha do corpo dele era sólido, reconfortante, como o sol da tarde numa varanda — um sol que ela não via há dias por causa das noites acordada.

Gael ajeitou uma mecha de cabelo que caía sobre o rosto dela. Os dedos dele eram longos, com calos nos polegares — talvez guitarra, talvez escalada, talvez ambas. O toque durou apenas um instante, mas deixou um rastro de eletricidade que percorreu o pescoço de Mariana até descer pelos ombros.

“Obrigado pela história do livro”, disse ele, a voz mais grave agora, como se tivesse sido areada pela madrugada.

“Obrigada pela poltrona.”

“A poltrona é de quem chega primeiro. Mas o lugar ao lado sempre esteve à sua espera.”

A Luz que a Chuva Esconde

Mariana não lembra quem beijou quem primeiro. Talvez tenha sido um movimento simultâneo — dois corpos que pararam de resistir à gravidade que os puxava um para o outro. Os lábios de Gael eram quentes, com gosto de café e algo adocicado — canela, era canela desde o começo. O beijo começou devagar, exploratório, como quem abre a primeira página de um livro sem saber se vai gostar do que vem depois.

As mãos dela encontraram o peito dele por cima da camisa de linho. Sentiu os batimentos cardíacos acelerados e sorriu contra a boca dele. Ele retribuiu o sorriso sem interromper o beijo, e o gesto transformou tudo — de tenso em terno, de urgente em inevitável.

Gael deslizou a mão pela cintura dela, puxando-a mais para perto. O espaço na poltrona já não existia; eram um só corpo sobre o couro gasto, com a luminária lançando sombras douradas sobre eles. Ele beijou o pescoço dela, encontrando aquele ponto logo abaixo da orelha que a fez segurar a respiração. As unhas de Mariana cravaram nos ombros dele, puxando a camisa para fora da calça.

“Aqui?”, sussurrou ela, a voz rouca.

“A livraria é minha. A poltrona é minha. E a única câmera aponta para a porta da frente.” Ele sorriu contra a pele dela. “E antes que você pergunte: sim, eu sou o dono.”

A revelação deveria tê-la feito recuar. Em vez disso, a fez rir — uma risada que se dissolveu num gemido quando os lábios dele desceram pela clavícula. As mãos de Gael eram firmes e precisas, como se estivessem segurando algo que could quebrar com facilidade, mas que também poderia se derreter sob o calor certo.

Mariana puxou os botões da camisa dele, um por um, revelando um peito largo com uma cicatriz fina logo abaixo das costelas. Beijou a cicatriz antes que pudesse pensar duas vezes, e sentiu o abdômen dele contrair sob seus lábios. Gael soltou um som grave, quase um rosnado, e a ergueu pelos quadris como se ela não pesasse nada.

Ela ficou sobre ele, os joelhos de cada lado, a saia do vestido subindo até as coxas. Os olhos dele percorreram o corpo dela com uma reverência que a fez corar da raiz dos cabelos até os pés. A chuva batia contra a vitrine, e o som era um tambor constante que marcava o ritmo daquilo que estava por vir.

Ele acariciou as coxas dela, subindo lentamente, os polegares desenhando círculos na parte interna. Mariana se curvou para beijá-lo de novo, mais fundo agora, com a língua encontrando a dele num ritmo que não era mais exploração, mas afirmação. As mãos dela desceram pelo abdômen dele, sentindo cada linha de definição, cada respiração que se tornava mais curta.

Quando o Último Capítulo se Abre

A poltrona era pequena demais para tudo o que queriam fazer, mas isso só os fez mais criativos. Gael a levantou e a colocou sobre a mesinha de centro, entre as xícaras de café e o livro antigo. A superfície era fria contra a pele dela, e o contraste com o calor das mãos dele era delicioso — gelo e fogo se alternando em cada toque.

Ele se ajoelhou. Os olhos de Gael pediam permissão e os de Mariana concediam tudo. Quando os lábios dele encontraram a pele interna das coxas, ela jogou a cabeça para trás e fechou os olhos. A sensação era como ser lida pela primeira vez — cada verso descoberto com surpresa, cada estrofe mais intensa que a anterior.

A língua dele era precisa, paciente, incansável. Mariana agarrou os cabelos dele, puxando os cachos do coque que finalmente se soltou. Os dedos dele se juntaram aos lábios, e o ritmo que construíram era lento, deliberado, como se ele estivesse escrevendo uma história com o corpo dela e não quisesse apressar o enredo.

O primeiro orgasmo a atingiu como uma onda que ela não viu chegar. As costas arquearam, os dedos apertaram os cabelos dele, e o nome de Gael escapou dos lábios dela num sussurro que a chuva quase engoliu. Ele não parou. Apenas diminuiu o ritmo, deixando que as ondas diminuíssem antes de começar tudo de novo.

Desta vez, Mariana o puxou para cima. Desabotoou a calça dele com mãos que tremiam — de desejo, de impaciência, daquela urgência que só aparece quando o corpo sabe o que quer antes que a mente decida. Gael entrou nela com um movimento único, e ambos pararam. O olhar que trocaram era impossível de traduzir em palavras — era a linguagem que só existe entre dois corpos que encontraram um ao outro na escuridão.

Ele se moveu devagar no começo. Cada investida era completa, profunda, como se quisesse memorizar cada centímetro. Mariana envolveu as pernas ao redor da cintura dele, puxando-o ainda mais fundo, e o gemido que ele soltou era o som mais bonito que ela ouviu na vida. As xícaras tremeram sobre a mesa. O livro antigo escorregou e caiu no chão, ninguém se importou.

O ritmo aumentou. Gael segurava os quadris dela com firmeza, enquanto ela cravava as unhas nas costas dele, deixando marcas que ainda estariam lá pela manhã. A poltrona chiava com cada movimento. A chuva cantava. E em algum momento entre um gemido e outro, Mariana percebeu que não pensava no projeto, nos prazos, em Londres ou em qualquer coisa que não fosse aquele homem dentro dela, ao redor dela, por toda parte.

O segundo orgasmo foi mais intenso que o primeiro. Mariana mordeu o ombro dele para não gritar, e Gael estremeceu inteiro — um tremor que começou nas pernas e subiu pela espinha até que ele a seguisse no abismo, enterrando o rosto no pescoço dela enquanto o corpo dele pulsava dentro do dela.

Ficaram assim por longos minutos. Apenas respirando. A chuva diminuía lá fora, como se o céu também tivesse encontrado seu alívio. Gael beijou a marca dos dentes no ombro dela, gentilmente, e murmurou algo que soava como “fica”.

Mariana sorriu, os olhos ainda fechados.

“Eu não tenho para onde ir.”

“Então fica para sempre.”

Ela abriu os olhos. Os dele estavam ali, castanhos e quentes, mais próximos do que qualquer pessoa tinha estado dela em anos. Não era promessa. Era convite. E ela aceitou sem dizer uma palavra — apenas o beijo que se seguiu, longo e doce, com gosto de café e canela e algo que só poderia ser o começo de uma história nova.

A livraria continuou aberta. O relógio marcava quase cinco da manhã quando os primeiros raios de sol atravessaram a vitrine. O livro antigo jazia no chão, aberto na página 47, a dedicatória secreta do tradutor exposta ao amanhecer. Ninguém o recolheu. Algumas histórias são melhores quando compartilhadas.