O Cheiro de Milho Verde
Bruno sentiu o cheiro antes mesmo de abrir a porteira. Milho assado na brasa, canela no quentão, o doce de leite escorrendo pelo bolo de fubá. Era cheiro de São João — o mesmo de vinte anos atrás, quando ele corria entre as bandeirinhas com os pés descalços e o coração leve. Agora, aos trinta e dois, voltava de São Paulo com o terno amassado na mochila e a sensação de que a cidade grande tinha envelhecido ele por dentro.
O arraial da Vila Nova era modesto, como tudo ali no interior de Minas. Um barracão de madeira com sanfoneiro já aquecendo os dedos, fogueira crepitando no centro, barracas de pau-a-pique vendendo pinga e pamonha. As crianças ainda corriam soltas, as moças usavam vestidos de chita com flores no cabelo, e os homens mais velhos já circulavam com o copo de cana na mão, dando risada seca de quem sabe que a noite vai ser longa.
Bruno cumprimentou meia dúzia de caras que reconheceu do tempo do colégio. Alguns estavam mais gordos, outros mais carecas, a maioria com filho no colo e olhar de quem trocou sonho por obrigação sem reclamar demais. Ele sentiu o peso de não pertencer — nem ali, nem a lugar nenhum. A cidade tinha ficado pequena demais, e São Paulo grande demais.
Comprou uma espiga de milho, sentou num banco de madeira perto da fogueira, e ficou observando o fogo. As labaredas dançavam com o vento morno de junho. O sanfoneiro começou um baião antigo, e os pés da gente já batiam no chão por instinto, mesmo sentado. Bruno deu um gole na cachaça amarela e pensou que talvez tivesse sido boa ideia aceitar o convite da mãe para passar o São João na roça.
O Reencontro Diante da Fogueira
Ela apareceu como quem não quer nada — saindo de trás da barraca das bebidas com dois copos na mão e um sorriso que iluminou mais que a fogueira. Luara. Filha da dona Neném do mercadinho, a menina que sentava na frente dele na sala de aula e passava bilhetes desenhados com coração de caneta azul. A última vez que a viu, ela tinha dezessete anos, sardas no nariz e um crush que ele nunca teve coragem de declarar.
Agora era mulher. Os cabelos cacheados estavam presos num coque frouxo com uma flor de papel crepom vermelha. Usava um vestido de chita vermelho e branco que marcava a cintura e acompanhava cada curva com generosidade mineira. As sardas tinham sumido, mas o sorriso era o mesmo — largo, sem pressa, com aquele brilho de quem está genuinamente feliz em ver alguém.
— Bruno? Jura que é você, gesel? Ela falou com aquele sotaque arrastado do interior, gosta de alongar as vogais como quem tem tempo de sobra. — Achei que você tinha esquecido a gente.
— Esquecer não. Adiar. Ele se levantou, sem saber se abria os braços ou estendia a mão. Luara resolveu por ele — chegou perto, abraçou apertado, e ele sentiu o corpo dela contra o seu por uns segundos que duraram mais do que deviam. O cheiro dela era de alecrim e algo doce, talvez o licor que ela tinha nas mãos.
— Você ficou bonita pra danada — ele disse, e logo sentiu o peso da obviedade. Mas ela riu, o tipo de risada que sobe do peito e sacode os ombros.
— E você ficou careca — ela alisou a própria cabeça dele de leve, brincalhona. — Mas combina. Tá mais sério.
Conversaram pé na fogueira por quase uma hora. Luara contou que ficou na cidade, deu aula de história na escola municipal, se separou do marido dois anos antes. — O Adalto? Casou de novo com uma de Uberlândia. Eu fiquei com a casa, ele ficou com a pizza. Riu sem mágoa. Bruno contou de São Paulo, do escritório de engenharia, dos relacionamentos curtos que não colavam. — Acho que eu não sei ficar parado — disse, e ela olhou pra ele com uma serenidade que desconcertou.
— Talvez você só não tenha encontrado quem te fizesse querer parar.
Quando a Sanfona Grudou os Corpos
O sanfoneiro anunciou um forró pé-de-serra — desses de verdade, com sanfona de oito baixos, zabumba e triângulo. A pista de terra batida se encheu de casais, e o pó subiu como fumaça dourada na luz das lanternas. Luara se levantou, estendeu a mão pra ele.
— Vem. Eu sei que você dançava forró. Não fazessa de quem esqueceu.
Bruno pensou em recusar. Fazia anos que não dançava, e em São Paulo forró era coisa de barzinho universitário com cerveja morna. Mas Luara já o puxava pelo braço, e antes que ele pudesse argumentar, já estava com a mão dela na nuca e os corpos alinhados pelo compasso do baião.
Ela dançava colada. Não era colagem de festa de cidade grande, performance pra Instagram. Era colagem de mulher do interior que sabe que forró se dança com o corpo inteiro — peito no peito, coxa roçando coxa, os pés deslizando devagar porque a pressa é inimiga do balanço. Bruno sentiu o calor dela atravessar o tecido fino do vestido, sentiu o volume dos quadris na palma da mão, o cheiro de alecrim subir quando o suor começou a formar na nuca dela.
— Tá tenso — ela murmurou perto do ouvido dele, e ele não sabia se ela falava dos ombros ou de outra coisa. — Relaxa. É só forró.
Só forró. Como se o corpo dela pressionado contra o dele fosse só música. Como se o modo como ela fechava os olhos ao conduzir, mordendo o lábio inferior de leve, fosse coreografia. Bruno deixou a mão descer uma fração na cintura dela, sentiu o tecido da saia franzir entre seus dedos, e ela não se afastou. Pelo contrário — apertou mais, encostou a testa no ombro dele, e a respiração quente bateu no pescoço de Bruno como um segredo.
A sanfona subiu de tom, o ritmo acelerou, e eles dançaram mais três músicas seguidas sem trocar uma palavra. Não precisava. Os corpos falavam na linguagem antiga do forró — a mão que sobe nas costas, o quadril que responde ao compasso, o olhar que se cruza por um segundo e desvia porque pesa demais. Na quarta música, uma toada lenta, Luara encostou os lábios na orelha dele.
— Tem uma parte de mim que não dançou forró em seis anos — disse, a voz baixa e sem brincadeira. — Tô achando que essa parte lembra como é.
O Quintal da Vó Tereza
Saíram do arraial de mãos dadas como adolescentes, atravessando a rua de terra até a casa da avó dela, que estava vazia — dona Tereza tinha ido pra casa da irmã em Tibagi e deixado a chave com a neta. O quintal era grande, com jequitibá antigo cuja copa filtrava a lua cheia em luzes moles, e um banco de madeira gasto de tanto sentar. O silêncio da madrugada era cortado só pelo grilo e pelo som distante da sanfona que ainda tocava lá no arraial.
Luara não acendeu a luz. Sentou no banco, puxou Bruno pela camisa, e ele se sentou ao lado dela. O luar desenhava o contorno dos seios por dentro do vestido de chita, e Bruno reparou que ela não usava nada por baixo — ou usava tão pouco que a luz traía. Por um momento, nenhum dos dois se mexeu. A tensão era um fio esticado entre dois corpos que esperaram tempo demais pra se encontrar.
— Eu tinha um crush em você — ele disse, porque sentiu que era hora de confessar o que ficou engolido há quinze anos. — No terceiro ano. Todo dia.
Ela sorriu devagar, como quem mastiga uma memória doce. — Eu sabia. Por que você acha que eu passava aqueles bilhetes?
Bruno riu, nervoso e quente ao mesmo tempo. Luara colocou a mão no rosto dele, acariciou a mandíbula com o polegar, e puxou seu rosto na direção dela. O primeiro beijo foi lento — lábios que se encontram como quem retoma uma conversa interrompida. Ela abriu a boca primeiro, e a língua dela era quente e macia, com gosto de cana e canela do quentão. Bruno sentiu a mão dela descer pelo peito, puxar a camisa pra fora da calça, e encontrar a pele do abdômen.
Ele beijou o pescoço dela — aquele pescoço longo e moreno que o sol de Minas dourou. Ela inclinou a cabeça pra trás, ofegou, e ele sentiu o corpo dela se entregar aos beijos como quem se entrega a uma correnteza. Desabotoou o vestido pelas costas, devagar, sentindo cada centímetro de pele nova que a lua revelava. Os seios dela eram cheios, com mamilos escuros que se enrijeceram na brisa fresca de junho. Ele os beijou com calma, lambendo em círculos, e Luara soltou um gemido baixinho que fez o sangue de Bruno ferver.
Ela o empurrou suavemente contra o banco, subiu no colo dele, e o beijou de novo — agora com urgência, com fome de quem passou anos sem ser tocada por mãos que realmente importassem. As mãos dela abriram o cinto, a calça, e encontraram o que procuravam. Bruno fechou os olhos e apertou os quadris dela quando ela o envolveu com a palma quente e firme.
— Me leva pro quarto — ela pediu, e a voz rachou no meio, entre comando e súplica.
Ele a carregou — literalmente, os braços por baixo das coxas dela, o vestido despencado na cintura, os braços dela no pescoço dele, beijando o canto da boca. O quarto de dona Tereza cheirava a lavanda e roupa de armário. Bruno a deitou na cama de colchão firme, terminou de tirar o vestido, e percorreu o corpo dela com beijos que demoravam em cada curva — o vale dos seios, a linha do abdômen, a marca da calcinha que ele puxou pelos quadis devagar como quem abre um presente.
Quando finalmente a penetrou, Luara prendeu a respiração e cravou as unhas nas costas dele. — Espera — pediu, e ele parou, respeitoso, com os braços trêmulos de esforço. Ela respirou fundo, se ajustou, e então o puxou pra mais perto. — Agora. Vai.
Bruno se moveu com a cadência do forró — lento, ritmado, cada investida um passo de dança que os dois conheciam por instinto. Luara erguia os quadris pra encontrá-lo, os olhos fechados, a boca entreaberta, as mãos apertando lençol. A cama rangia num compasso próprio, somando-se ao coro de grilos e ao eco distante da sanfona.
Ela gozou primeiro — o corpo inteiro se contraindo, as pernas travando ao redor dele, um gemido longo que ela abafou mordendo o ombro de Bruno. Ele sentiu as ondas apertarem ao redor dele e não aguentou mais — veio com força, enterrando o rosto no pescoço dela, sussurrando o nome dela como uma oração que não sabia que tinha guardado.
Ficaram deitados em silêncio, suados, o ventilador de teto girando preguiçoso no teto. Luara acariciava o peito dele com as pontas dos dedos, traçando círculos preguiçosos.
— Você volta pra São Paulo quando? ela perguntou, a voz mole de quem já sabe a resposta mas precisa ouvir mesmo assim.
— Domingo.
Ela não disse nada por um longo tempo. Depois virou o rosto pra ele, e aquele sorriso largo e sem pressa iluminou o quarto escuro.
— Então temos até domingo. Melhor aproveitar.
Lá fora, a fogueira do arraial já tinha apagado. Mas a que queimava entre eles estava só começando.