
O caderno estava encardido de tantas mãos, mas foi ele que Beatriz, trinta e cinco anos, tirou da última caixa lacrada no alto do armário num domingo de sol preguiçoso. Na capa, com a letra redonda de professora aposentada, lia-se “Comida da Íris”. Lá dentro, entre bolos de aniversário e caldos de inverno, uma receita caseira simples de pão de queijo ocupava a primeira página, sublinhada três vezes a caneta-tinteiro, com uma nota na margem: “para dias em que o corpo pede casa”. Beatriz sorriu antes mesmo de entender por quê.
Nando, trinta e sete anos, apareceu na porta da cozinha ainda de camiseta amassada de sono, segurando duas xícaras de café. Posou o queixo no ombro dela e leu o título em voz alta, devagar, como quem lê um convite escrito à mão. Havia algo de inevitável naquele domingo: chuva que não chegava, celulares desligados por acordo mútuo desde o sábado à noite, e uma geladeira com polvilho, ovos e um queijo meio velho esperando destino melhor.
— Minha avó dizia que massa acalma — Beatriz comentou, fechando o caderno e apertando-o contra o peito. — E que cozinha vazia em dia de domingo é desperdício.
Nando riu, beijou o gosto de café na boca dela e abriu a pia para lavar as mãos. Se algum vizinho passasse na rua naquela hora, veria apenas um casal comum decidindo o almoço. O caderno de Íris, porém, tinha essa mania antiga de empurrar os dias para fora dos trilhos.
A receita do caderno
A página do pão de queijo era um mapa do tempo. Íris havia anotado quantidades em colher de sopa “rasada”, tempo de forno “até a vizinhança sentir o cheiro”, e uma lista de ingredientes que cabia num palmo de mão. Beatriz lia em voz alta enquanto Nando separava as tigelas, e os dois descobriram que cozinhar junto exige coreografia: quem mexe, quem despeja, quem prova na ponta do dedo.
Antes de qualquer coisa, no entanto, ela puxou o braço dele pela manga e esperou que ele a encarasse. Não era novidade para nenhum dos dois que uma tarde daquelas podia desandar para outros lugares; a novidade era o caderno, a farinha e a pressa boa que ela sentia na nuca.
— Vamos com calma — ela disse. — E eu aviso desde já: eu quero, e se eu disser basta, a gente para na hora. Sem cara feia, sem cobrança depois. Combinado?
Nando assentiu com a seriedade de quem entende que desejo combina com regra clara. Também disse o seu: se ele erguesse a mão em sinal de pausa, valia o mesmo acordo. Um contrato de duas linhas, selado com um beijo curto e com o acendimento do fogo médio. Consentimento, os dois aprenderam um dia, é isso: palavra combinada antes do primeiro suspiro e honrada depois dele.
Então começaram. O polvilho desceu da embalagem como neve grossa, e o queijo ralado perfumou a bancada inteira. Beatriz amassava com as duas mãos enquanto relia as instruções da avó — “sovar até a mão cansar antes do braço” —, e Nando ia atrás com o leite fervendo, tirando a panela do fogo no instante exato em que a espuma ameaçava subir. A cada tigela que se enchia, a cozinha ganhava um cheiro de infância dos dois, misturado a alguma coisa nova, quente, que não tinha nome de comida.
Farinha, pele e paciência
Nando passou farinha nas mãos por pura vaidade de cozinheiro de fim de semana e, ao estalar os dedos, uma nuvem branca pousou no antebraço de Beatriz. Ela olhou para a marca, depois para ele, e decidiu devolver: enfiou o indicador na tigela e desenhou uma listra de polvilho na camiseta dele, do ombro ao peito, como quem assina uma obra.
— Isso foi declaração de guerra — ele avisou, com a voz falsamente grave.
— Foi experimentação — ela corrigiu. — A receita manda usar as mãos.
Usaram. Massa gruda, escorrega, cede. Nando segurou o punho dela dentro da tigela e os dois sovaram juntos, mão sobre mão, num ritmo que deixou de ser de comida lá pelo segundo minuto. A farinha ia e voltava: no pulso, na curva do pescoço, na linha da mandíbula. Beatriz virou o rosto para comentar a consistência e perdeu a frase inteira na boca dele. Nando beijou devagar, com gosto de queijo e café, a mão ainda enfarinhada fechando com cuidado no quadril dela por cima do avental florido.
De repente, a cozinha ficou pequena demais para dois corpos que já não fingiam cozinhar. Beatriz sentou na bancada — a mesma onde a avó dela estendia massas de Natal — e puxou Nando pela cintura da calça, aproximando-o até sentir o calor dele atravessar o tecido. Ele perguntou, sempre perguntava, se estava bom assim; ela respondeu puxando a camiseta dele pela barra e despachando-a para o ladrilho.
As bochechas dos dois estavam coradas do vapor do leite e de outra coisa. Ele beijou o ponto da garganta onde o pulso batia apressado; ela cravou os dedos enfarinhados nos cabelos dele e trouxe o rosto dele de volta ao seu, porque queria beijo junto com o resto — e disse isso em voz alta, sem rodeio. A massa descansava na tigela coberta por um pano, como mandava o caderno; os dois, que não constavam no caderno, decidiram descansar de outro jeito.
Mãos lavadas às pressas, avental atirado na cadeira. Nando ergueu Beatriz da bancada e ela enrolou as pernas nele; atravessaram a cozinha em quatro passos, entre risos abafados, e pararam encostados na geladeira, entre ímãs de viagem antiga fazendo cócegas nas costas dela. A cada avanço, ele perguntava; a cada pergunta, ela respondia sim, e o sim ia ficando mais curto e mais urgente, sem nunca deixar de ser inteiro.
Quando o forno apitou avisando que estava quente, nenhum dos dois se mexeu para abrir a porta. Beatriz alcançou o botão às cegas e desligou o timer. Pão sabe esperar; a tarde, eles haviam combinado, não.
A mesa posta às escuras
Mais tarde, com os pães assando e o cheiro tomando a casa inteira, Beatriz acendeu duas velas que sobraram de um aniversário distante e as acomodou sobre a toalha de xadrez. Nando pôs os pratos fundos, os garfos e uma jarra de água com gelo, porque sede era previsível naquele cardápio. Jantariam pão de queijo com manteiga, e só. Íris aprovaria: a receita era de se comer com as mãos, quente, sem pressa, partindo.
Sentaram um de frente para o outro, e a mesa estreita fazia os joelhos se tocarem por baixo sem querer — e depois querendo. Nando partiu o primeiro pão; o vapor saiu de dentro como um segredo aberto. Ele segurou o pedaço no alto, esperou que ela abrisse a boca e a alimentou, atento demais para um gesto tão simples. Beatriz mordeu, fechou os olhos e, ao abri-los, já havia decidido o resto da noite.
— Sobe comigo — ela pediu, estendendo a mão por cima dos pratos.
Ele segurou a mão dela e, antes de se levantar, olhou bem nos olhos dela: — Você tem certeza?
Ela respondeu com as palavras inteiras, entre um beijo e outro: sim, eu quero, aqui e agora. Não como favozinho, não como encenação; como informação clara, do tipo que não deixa margem. Nando apagou as velas com dois sopros, deixou o forno fechado para conservar o calor e a seguiu pela escada, mãos encaixadas, rindo baixinho como duas pessoas que acabaram de aprontar algo e ainda nem começaram direito.
No quarto, a luz do fim de tarde entrava horizontal pela fresta da cortina e desenhava uma faixa dourada sobre a cama. Despiram-se sem cerimônia, com a intimidade de quem conhece cada botão da roupa do outro e ainda assim se surpreende com o que encontra embaixo. Beatriz empurrou Nando no colchão e subiu por cima, os cabelos caindo como cortina; ele segurou o rosto dela entre as palmas e disse, sério por um segundo inteiro, o quanto aquilo — ela, eles, aquele domingo todo — era bom.
Fizeram amor com a paciência que a massa havia ensinado: sem pressa, voltando sempre ao beijo, revezando quem dava e quem recebia, quem guiava e quem se entregava. O consentimento não era documento ali; era idioma falado a cada instante — um “assim?”, um “assim”, um “mais devagar”, um “não, exatamente assim”. Quando Beatriz precisou de um instante para respirar, disse basta com a voz serena, e Nando parou na hora exata, sem drama, acariciando o cabelo dela até que ela mesma o puxasse de volta. Recomeçaram, e o recomeço era ainda melhor porque a pausa tinha sido respeitada como parte do jogo, não como falha.
Depois, deitados de lado, um de frente para o peito do outro, ouviram o silêncio da casa perfurado apenas pelo tique-taque do relógio de parede da cozinha. Lá embaixo, o pão esfriava na assadeira, já promovido a sobremesa e café da manhã seguinte.
Sobremesa e a palavra final
Desceram de madrugada, enrolados no mesmo roupão gigante que ela ganhara da mãe, e comeram o pão de queijo frio em pé, na luz da geladeira aberta, rindo das migalhas que se espalhavam pelo chão. Beatriz rasgou um pedaço, passou manteiga demais de propósito e dividiu com ele na boca, da mesma mão. Estava bom até frio, o que era raro; ou talvez tudo tivesse gosto melhor depois daquele dia.
Antes de dormir, Nando copiou a receita do caderno de Íris para o bloco de notas do celular, palavra por palavra, incluindo as anotações de margem. Acrescentou, por conta própria, uma última linha que a avó dela não escreveu: “serve apenas para dois”. Beatriz leu por cima do ombro dele e aprovou a edição com um selo de beijo na têmpora.
No sofá, com os pés dela no colo dele, conversaram baixo sobre regras que não são regras, mas cuidado: combinaram, rindo, que qualquer um pode parar quando quiser, sempre, em qualquer etapa, sem explicação maior do que um basta dito com serenidade. Não era a primeira vez que falavam sobre isso e não seria a última; é o tipo de conversa que se repete como quem rega planta.
Se o leitor chegou até aqui em busca de mais histórias assim — devagar, quentes, com desejo e acordo claro —, vale abrir também o conto do casal que reencontrou uma fantasia antiga e a noite de desejo que começou num sebo de vinis na chuva. São dois outros domingos, de outras pessoas fictícias, com o mesmo capricho nos detalhes.
Esta história é ficção, escrita para apenas adultos, com personagens imaginários adultos e consentimento explícito em cada cena. Beatriz e Nando não existem; a receita, essa, qualquer um pode tentar em casa — de preferência num domingo sem pressa e ao lado de quem combina a palavra basta antes de começar.