junho 1, 2026

O Terraço de Verão — Quando a Luz Caiu e Tudo Aconteceu

O Terraço de Verão — Quando a Luz Caiu e Tudo Aconteceu

O apagão pegou todo o bairro de surpresa. Era uma daquelas noites de janeiro em São Paulo em que o calor não perdoava — trinta e seis graus às dez da noite, sem vento, sem alívio. Mariana estava deitada no escuro do apartamento, apenas com o ventilador parado e o silêncio pesado da cidade sem energia, quando decidiu subir. Três meses morando ali e nunca tinha subido ao terraço. Mas aquela noite parecia pedir algo diferente.

O terraço do edifício ficava no último andar, de acesso restrito, mas a portaria estava deserta e o porteiro automático também sem força. Ela subiu de escada. Calção de linho, camiseta larga, cabelo preso. Não esperava encontrar ninguém.

Encontrou.

Dois Estranhos no Escuro

Rafa estava encostado no parapeito, com um copo de vinho que provavelmente tinha tirado do adega antes da luz cair. A cidade lá embaixo era um tapete de luzes apagadas, interrompida por pontinhos aleatórios — geradores de prédios, faróis de carros, o bruxo de celular de alguém.

Mariana reconheceu-o do elevador. Morava no oitavo andar. Fotógrafo, achara ela, pelas mochilas e pelo cheiro de revelação química que às vezes impregnava o corredor. Trocavam acenos. Nada mais.

— Tô sem vinho, mas acho que tem cerveja na minha geladeira — que também vai pro saco se a luz não voltar — ele disse, sem tirar os olhos do horizonte.

— A minha geladeira já está morrendo — ela respondeu, parando ao lado dele. — Trinta e seis graus e nem um ventilador.

— Quer dizer que nós dois subimos aqui pelo mesmo motivo.

— Calor e escuridão — ela confirmou.

Rafa virou-se para ela, e pela primeira vez Mariana o viu direito. Ombros largos, barba curta, olhos claros que a lua refletia de um jeito quase absurdo. Ele sorriu, e o sorriso era preguiçoso, sem pressa.

— Rafa.

— Mariana. 14º andar.

— Sei. Você sempre entra com uma pilha de livros debaixo do braço.

Ela sentiu o rosto esquentar — e não era só por causa da temperatura.

O Silêncio Ficou Pesado

Ficaram ali por quase meia hora. O calor era menos agressivo lá em cima, com uma brisa tênue que subia da avenida. Rafa contou que era fotógrafo de documentários — tinha voltado de uma expedição no Pantanal há duas semanas. Mariana falou da faculdade de arquitetura, do escritório que a esgotava, do divórcio que assinara três meses antes.

— Por isso os livros — ele disse. — Fuga saudável.

— E as fotografias? — ela perguntou. — Também fuga?

Rafa hesitou. Bebeu um gole do vinho. O silêncio entre os dois era o tipo que obriga a prestar atenção — cada respiração, cada som distante da cidade lá embaixo.

— Mais como um jeito de provar que existem coisas bonitas — ajeitou-se, olhou para ela — mesmo quando a gente tá tão dentro da própria dor que quase esquece.

Mariana não respondeu logo. O silêncio entre eles não era vazio — era denso, cheio de algo que nenhum dos dois nomeava. Ela percebeu que estava mais perto dele do que quando tinham chegado. O perfume dele misturado ao calor úmido da noite. O braço dele encostado no dela, e ela não fez questão de se afastar.

— Posso perguntar uma coisa íntima? — disse ele, com a voz mais baixa.

— Depende do quão íntima.

— Você subiu aqui porque o calor, ou porque o silêncio do apartamento assustou?

Ela respirou fundo. Ninguém nunca tinha formulado aquilo com tanta precisão.

— Os dois — admitiu.

O Calor Virou Algo Mais

Rafa desceu do parapeito e estendeu a mão. Ela olhou para a mão dele por um segundo — longos dedos, calos de câmera no polegar — e aceitou. Ele a conduziu até o canto do terraço, onde duas espreguiçadeiras de lona ficavam ao lado de um jardim vertical de plantas que a zeladora cultivava.

— Minha avó dizia que ninguém deveria ficar sozinho num apagão — ele comentou, sentando-se e puxando-a para a espreguiçadeira ao lado.

A distância entre eles era mínima. Mariana sentia o calor do corpo dele no próprio braço. O vinho acabou. A cidade continuava escura. E então Rafa virou o rosto para ela, devagar, como quem testa o tempo antes de abrir a janela.

O primeiro beijo foi leve. Um teste. Os lábios dele eram macios, com gosto de vinho tinto e algo mais — algo que ela não conseguia nomear, mas que fez o estômago dela virar. Ela retribuiu, e o segundo beijo foi diferente. Mais longo. Mais firme. A mão dele subiu até a nuca dela, os dedos encontrando o elástico que prendia o cabelo.

Ele tirou o elástico com delicadeza. O cabelo caiu sobre os ombros dela, e Mariana sentiu o ar na pele da nuca pela primeira vez naquela noite — uma sensação que deveria ser fresca, mas que o toque dele transformou em eletricidade.

— Tem certeza? — perguntou ele, a boca encostada na orelha dela.

— Não — disse ela, honesta. — Mas quero continuar.

A Cidade Voltou, Mas Eles Não

As luzes do bairro voltaram às onze e quarenta e sete. Mariana percebeu pelo reflexo nos olhos dele — uma faixa dourada que varreu o terraço como um amanhecer prematuro. O ar-condicionado dos apartamentos reiniciou com um zumbido coletivo. A cidade inteira pareceu suspirar de alívio.

Mas nenhuma daqueles dois fez qualquer movimento para ir embora.

Rafa estava deitado ao lado dela, as pernas entrelaçadas, a camiseta dele jogada em algum lugar entre o parapeito e o jardim vertical. O cabelo de Mariana espalhado sobre o peito dele como seda molhada. A brisa agora era mais fresca, e a lua cheia pendia sobre a cidade como uma lâmpada que não precisava de energia.

— Quando a luz voltar de verdade — ele murmurou — a gente vai ter que voltar a ser vizinhos que só se acenam no elevador.

Ela ergueu a cabeça, apoiando o queixo no peito dele.

— Quem disse que a gente precisa fazer isso?

Rafa sorriu daquele jeito preguiçoso de novo, e Mariana percebeu que aquele sorriso já era dela — ou que ela já era dele. A diferença não importava.

Ambos sabiam que a noite estava acabando. Que amanhã seria segunda-feira, que o escritório de Mariana a esperava, que Rafa tinha fotos para editar. Mas por aqueles minutos finais no terraço, com a cidade reacesa lá embaixo e os corpos ainda quentes, o tempo não existia.

Mariana vestiu a camiseta de Rafa — a dela tinha ficado esquecida em algum lugar durante o caminho — e desceu com ele de elevador. O porteiro automático voltou a funcionar. A luz do corredor do 14º andar estava acesa.

Antes que ela entrasse no apartamento, Rafa segurou o braço dela.

— Jantar amanhã? Lá embaixo. Posso cozinhar.

— Você cozinha?

— Mal — ele admitiu. — Mas a companhia compensa.

Mariana sorriu, entrou, e fechou a porta sem responder. Três segundos depois, ele ouviu a mensagem no celular: “Oitava da noite. Traz vinho.”

Rafa leu a mensagem, olhou para o teto do elevador e riu sozinho. A cidade inteira tinha voltado ao normal. Ele, não.