
A chuva começou sem aviso, como começam todas as coisas que mudam o rumo de uma noite. Bárbara empurrou a porta de vidro embaçado daquele velho sebo de vinis na Rua Augusta, e o tilintar do sino acima da entrada foi engolido pelo trovão que rachou o céu de São Paulo. Lá dentro cheirava a pó, a papel envelhecido e àquele perfume particular de vinil aquecido que ela associava à casa da avó. Bárbara, trinta e quatro anos, produtora de som freelancer, conhecia cada gaveta daquele lugar — e mesmo assim foi direto à seção de MPB dos anos setenta, como faz toda quarta-feira.
Ela não esperava encontrar ninguém naquela gaveta. Muito menos um homem de joelhos no chão, segurando uma capa com a reverência de quem segura um manuscrito, tão concentrado que não ouviu o sino nem o salto fino batendo no assoalho de madeira.
— Desculpa — ele disse, levantando os olhos quando percebeu a sombra dela. Tinha um sorriso torto e olhos castanhos que pareciam guardar uma pergunta. — Caio, trinta e um anos, professor de história e, aparentemente, a pessoa que estava sentada no seu lugar favorito.
Bárbara soltou uma risada curta. Ele se levantou, e ela notou as mangas arregaçadas, os braços magros marcados por um relógio velho de couro desgastado, e um exemplar de Clube da Esquina apertado contra o peito como escudo.
— Você conhece o Lô Borges? — ela perguntou, apontando com o queixo o disco que ele segurava.
— Conheço a ponto de saber que esta prensagem de 1972 vale mais do que o meu aluguel — ele respondeu, e o sorriso se abriu. — Mas eu não vim buscar este. Vim buscar um Milton que sumiu da minha coleção.
O dono do sebo, um senhor de óculos grossos chamado Augusto, apareceu atrás do balcão com dois copos de café e um guarda-chuva pingando.
— Vou ter que fechar mais cedo — anunciou. — Mas a chuva não dá trégua, então fiquem. Tomem café. Eu vou ver se a loja não inunda.
E assim, por ironia da tempestade, Bárbara e Caio ficaram presos naquele labirinto de prateleiras enquanto a cidade se desfazia em água lá fora.
O Primeiro Lado do Disco
Augusto desapareceu nos fundos e os dois ficaram sozinhos entre as gavetas, com o café fumegante e o som da chuva batendo na vitrine como dedos impacientes. Caio puxou uma caixa de papelão que ele mesmo tinha trazido — uma coleção particular que estava tentando vender em consignação — e começou a separar os discos por década. Bárbara se ajoelhou do outro lado da caixa e, sem combinar, os dois montaram um acervo improvisado no chão entre os pés.
— Esse — ela disse, puxando uma capa de Tim Maia — é o som mais sujo e mais honesto do Brasil.
— E esse — ele retrucou, segurando um Elis & Tom — é o mais limpo e mais triste.
Os dedos deles se encontraram sobre uma capa de Gal Costa. Não foi um toque acidental. Bárbara percebeu que Caio deixou os dedos parados ali por um segundo a mais do que o necessário, e ela também não recuou. O calor da pele dele contra a sua, por baixo daquela capa envelhecida, foi a primeira coisa honesta da noite.
— Eu não costumo fazer isso — ela disse, baixo, sem saber ainda o que aquilo significava.
— Eu também não — ele respondeu. — Mas eu não quero que a chuva pare.
Ela sorriu. Augusto gritou lá dos fundos que ia ligar o velho toca-discos para eles ouvirem alguma coisa, e segundos depois a agulha desceu num bolero instrumental que preencheu o sebo inteiro. Bárbara encostou a cabeça na prateleira e fechou os olhos. Quando os abriu, Caio estava mais perto — perto o suficiente para ela sentir o cheiro de café e de chuva na pele dele.
— Posso? — ele perguntou, a mão suspensa no ar, a centímetros do rosto dela. A pergunta era clara, o consentimento explícito e reversível, e Bárbara respondeu inclinando o rosto até que a mão dele pousasse na sua bochecha. O beijo veio devagar, com a paciência de uma balada que não tem pressa de chegar ao refrão.
Quando a Agulha Arranha
Bárbara sentiu os lábios dele firmes e quentes, e quando a língua dele encontrou a sua, ela segurou o colarinho da camisa dele e puxou. Caio gemeu baixo, um som que ela sentiu vibrar no próprio peito, e deslizou as mãos pela cintura dela, encontrando a barra da blusa sem invadir, sem atravessar nenhuma linha que não tivesse sido convidada.
— Meu apartamento fica a duas quadras — ela sussurrou contra a boca dele.
Caio olhou para a porta. A chuva continuava torrencial. Ele olhou para Augusto, que acenou de longe com um polegar para cima, como se aprovasse a decisão de qualquer um dos dois de ficar ou partir. Eles pegaram o guarda-chuva emprestado, o disco de Tim Maia que Bárbara queria comprar, e saíram correndo pela Augusta debaixo de um temporal que não perdoava ninguém.
Chegaram ao prédio dela encharcados, rindo, com os sapatos fazendo barulho de esponja no saguão de azulejos antigos. No elevador, Bárbara encostou Caio contra o espelho e o beijou de novo, agora com mais urgência, enquanto a água escorria dos cabelos dos dois e empapava o carpete. Ele ergueu as mãos para o alto, mostrando as palmas — um gesto de entrega, de escolha deliberada — e disse:
— Tudo o que você quiser. E se quiser parar, a gente para.
— Se a gente for parar — ela respondeu, mordendo o lábio inferior —, não vai ser agora.
O Apartamento e a Madrugada
Bárbara abriu a porta e puxou Caio para dentro. Na penumbra do apartamento dela, entre um colchão baixo no chão, livros empilhados como mobília improvisada e um toca-discos que ela mesma tinha consertado, os dois se enxugaram com a mesma toalha — primeiro os ombros dele, depois os dela, cada gesto um exame demorado da pele do outro.
Ela colocou o disco de Tim Maia no prato. A voz grave de Colégio de Aplicação encheu o quarto escuro enquanto Bárbara empurrava Caio contra a cama e se sentava sobre ele, as pernas molhadas de chuva envolvendo os quadris dele. As mãos dele subiram pelas costas dela, firmes e sem pressa, e encontraram o fecho do sutiã. Bárbara se inclinou até que os seios ficassem ao alcance da boca dele e, quando ele os beijou, ela soltou um gemido baixo que se misturou ao baixo do disco.
— Isso — ela disse, a voz rouca —, exatamente isso.
Caio a virou com delicadeza, deitando-a de costas, e desceu pelo corpo dela com uma atenção quase devocional — beijando o pescoço, a curva dos seios, a linha do abdômen, até ajoelhar entre as pernas dela. Bárbara agarrou o lençol e arqueou as costas quando a boca dele encontrou o lugar mais sensível. Ele trabalhou com uma calma cruel, alternando pressão e leveza, lendo cada respiração dela como quem lê uma partitura. Quando ela chegou perto, puxou o cabelo dele e disse aí, fica aí, e o orgasmo a atravessou como um acorde sustentado que se recusa a terminar.
Ela o puxou para cima, abriu as pernas e o guiou para dentro de si com um movimento lento e fundo que arrancou um gemido dos dois ao mesmo tempo. Caio enterrou o rosto no pescoço dela, e o ritmo começou hesitante, depois cresceu, e Bárbara envolveu as pernas nos quadris dele e o puxou mais fundo. Os corpos se encontravam no compasso do funk que ainda tocava no fundo, e quando o segundo orgasmo chegou — dela primeiro, dele logo em seguida — os dois ficaram parados, colados, respirando juntos no escuro enquanto a agulha chegava ao fim do disco e chiava suavemente no rótulo de papel.
Caio rolou para o lado e puxou Bárbara para o peito. A chuva lá fora tinha amainado para uma garoa mansa. Ela traçou com o dedo a linha do relógio velho no pulso dele.
— Você disse que não costuma fazer isso — ele murmurou contra o cabelo molhado dela.
— Eu disse. — Bárbara sorriu no escuro. — Mas um disco de Tim Maia e uma tempestade são motivos razoáveis.
— E amanhã?
— Amanhã a gente descobre qual lado do disco toca primeiro.
A luz da rua entrava pela janela em faixas amarelas. Bárbara fechou os olhos, sentindo o peito dele subir e descer, e o silêncio do apartamento não pareceu vazio — pareceu o intervalo perfeito entre duas faixas. Esta é uma história de ficção erótica entre adultos, com desejo e consentimento explícito, e nada além disso.
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