O Camarim Vazio — A Última Noite Antes da Grande Estreia
O Teatro Augusta estava em silêncio pela primeira vez em três semanas. Beatriz tirou os sapatos de cena no fim do corredor e sentiu o soalho de madeira frio sob os pés. O ensaio técnico terminara havia quarenta minutos, o diretor levantara a mão num gesto cansado de “bom, já chega”, e o resto do elenco recolhera os casacos e desaparecera na noite de São Paulo. Só ela permanecia ali, e, algures nas grades de luz acima do palco, o barulho metálico de Rafael a ajustar o último refletor.
Beatriz tinha trinta e três anos e aquela era a primeira vez que fazia um papel principal. Não era um papel qualquer: Helena, uma mulher que regressa à cidade natal depois de vinte anos e descobre que o amor que deixou para trás nunca desapareceu. Havia um monólogo de doze minutos no segundo ato, em cena única, com toda a luz concentrada nela. O diretor dissera que era o coração da peça. Ela sentia esse coração a bater-lhe contra as costelas todas as noites, incapaz de adormecer, a repetir as falas no chuveiro, no táxi, na fila da padaria.
Rafael desceu a escada lateral com a caixa de ferramentas numa mão e um casaco na outra. Operador de luz e cenógrafo, trinta e cinco anos, calado por natureza. Tinha um modo de observar as pessoas que não invadia, mas que deixava Beatriz sempre com a sensação estranha de ter sido lida por inteiro. Ele parou à beira do palco e olhou para ela, ainda com a maquilhagem de cena meio apagada e o cabelo preso num coque desfeito.
“Vai ensaiar ainda?”, perguntou ele, sem tom de acusação.
“Não consigo parar.”
Rafael largou o casaco sobre uma cadeira da plateia e olhou para a mesa de controlo. “Posso deixar-te a luz do segundo ato armada. Uns dez minutos e fecho a sala.”
Beatriz hesitou. A casa estava vazia, as portas fechadas, e o silêncio de um teatro sem público é um silêncio diferente, mais grosso, quase líquido. Acenou com a cabeça. “Faz isso.”
O Refletor e a Mulher Sozinha
Ele subiu à mesa de luz e desligou as fontes de trabalho, aquelas lâmpadas cruas que mostravam cada imperfeição. No lugar delas, acendeu o clarão âmbar do segundo ato — o tom exato de um fim de tarde imaginário que a peça exigia. O palco transformou-se. As paredes pretas desapareceram, o soalho ganhou textura, e Beatriz ficou suspensa naquele retângulo de luz quente como se o tempo, lá fora, tivesse parado mesmo.
Ela respirou fundo e começou o monólogo. As palavras saíram com uma segurança que os ensaios com público nunca tinham permitido. Sem olhos a julgá-la, Helena apareceu por inteiro: a voz mais grave, as mãos mais lentas, o corpo que finalmente ocupava o espaço sem pedir licença. Beatriz sentiu qualquer coisa soltar-se dentro do peito, uma espécie de rendição, como se finalmente entendesse porque é que a personagem voltara.
Quando chegou à última frase, parou. A luz continuava a banhá-la. Virou-se, devagar, e encontrou Rafael sentado na quinta fila, imóvel, com as mãos sobre os joelhos. Ele não aplaudiu. Não sorriu. Apenas a olhava com uma atenção tão inteira que Beatriz sentiu o rosto arder.
“Foi isso que a peça precisava”, disse ele, em voz baixa. “Agora vi.”
“Não foste embora.”
“Não consegui.”
A Distância Que Deixou de Existir
Beatriz desceu do palco pelo degrau lateral e foi ter com ele. O ar entre os dois tinha mudado de temperatura; ela não saberia explicar como, mas sentia. Rafael levantou-se e ficou perto, mais perto do que nunca tinham estado em três semanas de trabalho conjunto. O cheiro dele misturava lubrificante de engrenagens com o café forte que bebia o dia inteiro.
“Queres beber qualquer coisa?”, ofereceu ele. “Há uma garrafa de vinho no camarim, deixada cá da festa de leitura de texto.”
O camarim era um quarto pequeno e quente, com um espelho enorme, luzes de maquilhagem em volta, e uma confusão de cabides e sapatilhas. Rafael serviu duas taças e entregou-lhe uma. Os dedos deles tocaram-se no cabo do copo e nenhum dos dois recuou.
Beatriz bebeu um gole longo. O vinho estava quente e doce, quase groselha. Sentou-se na banco de maquilhagem e viu, no espelho, os dois corpos refletidos lado a lado: ela ainda de Helena, com a máscara de personagem a derreter; ele de braços cruzados, a camisa manchada de pó de giz de cena.
“Não me tinhas dito que ficavas”, disse ela, sem saber exactamente para onde ia a frase.
“Decidi quando te ouvi.” Rafael encostou-se à parede. “Há qualquer coisa em ti quando esqueces que alguém olha. Fiquei por causa disso.”
Beatriz pousou a taça. O coração batia-lhe agora por um motivo diferente do medo de palco. “Fico contente que tenhas ficado.”
O Toque Sob as Luzes
Foi ele que se aproximou primeiro, devagar, dando-lhe todo o espaço do mundo para dizer não. Beatriz não disse. Quando a mão dele lhe tocou o lado do pescoço, ela fechou os olhos e soltou o ar que nem percebera que prendia. O toque era quente, firme, com a calma de quem lida com coisas frágeis por profissão.
Rafael beijou-lhe a têmpora, depois a ponta da mandíbula, depois o canto da boca. Beatriz virou-se para ele e o beijo aconteceu por inteiro, lento, com o gosto de vinho quente entre os dois. As mãos dela subiram-lhe ao peito e sentiram o coração a bater tão depressa quanto o dela — ali, o técnico calado e a actriz ansiosa, iguais no descontrolo.
Ele afastou-lhe o casaco de Helena dos ombros e a peça caiu no chão com um som macio. As lâmpadas do espelho projectavam uma luz dupla que tornava cada gesto mais nítido, mais presente. Beatriz puxou-o pela camisa até que ele se sentou no banco ao lado dela, e os joelhos se tocaram, e os narizes se roçaram, e o riso veio baixinho, nervoso, bonito.
“Há quanto tempo não fazias isto?”, sussurrou ela.
Rafael sorriu contra a pele dela. “Há quanto tempo não fazias isto com vontade.”
Beatriz não respondeu com palavras. Respondeu com o corpo, inclinando-se, abrindo a blusa devagar, deixando-se ser vista por inteiro como nunca tinha deixado ninguém em palco. A vulnerabilidade da personagem derreteu-se com a dela própria, e pela primeira vez em três semanas o medo desapareceu por completo.
Ele beijou-lhe a clavícula, a curva do seio, a linha da cintura, com uma paciência que a deixava sem fôlego. Beatriz cravou os dedos nos ombros dele e puxou-o para mais perto, e o banco rangeu sob o peso dos dois, e o espelho guardou cada gesto sem julgar nenhum.
A Manhã Depois da Estreia Interior
Fizeram amor no camarim com a porta fechada e as luzes do espelho acesas, primeiro com a urgência de quem esteve à espera demasiado tempo, depois com a lentidão de quem descobriu que não há motivo para ter pressa. Beatriz soltou sons que nunca tinha soltado, e Rafael respondeu com sussurros contra a orelha dela que a fizeram rir e arquejar ao mesmo tempo. Consentiram em tudo, pararam quando era preciso parar, voltaram quando era preciso voltar.
Depois, ficaram deitados no banco estreito, ela com a cabeça no peito dele, ele com uma mão a desenhar círculos preguiçosos nas costas dela. O teatro continuava vazio e mudo à volta deles, e lá fora São Paulo já dormia, e a estreia era na noite seguinte, e nenhuma das duas coisas parecia importante.
“Achas que vai correr bem?”, perguntou ela, a voz meio afogada em sono.
Rafael beijou-lhe o topo da cabeça. “Se fizeres no palco metade do que fizeste agora quando estavas sozinha com a luz, vão chorar.”
Beatriz sorriu. “Talvez a peça precise mesmo de uma Helena que já não tem medo.”
“Você já não tem.”
Ela adormeceu assim, com o coração finalmente quieto, o cheiro dele na pele e o clarão âmbar do segundo ato ainda aceso lá fora, sobre o palco vazio, à espera.
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