
Leontina tinha trinta e quatro anos quando entendeu de vez que massa de cuca não se apressa, do mesmo jeito que não se apressa uma manhã de domingo. Eram quase seis horas e o rádio da cozinha tocava baixinho uma polca velha quando ela desligou o despertador da cabeça e pisou descalça no piso frio. Na bancada, o caderno de capa dura da avó Hilda, com a letra redonda e a tinta desbotando, aberto na página da cuca de banana. Ao lado, uma tigela com três bananas-prata quase pretas de maduras, cheirando a doce demais, cheirando a urgência de serem usadas antes que o tempo decidisse por elas.
Leontina morava sozinha numa casa de fundos em Novo Hamburgo, com uma horta pequena e um forno a gão que demorava a esquentar mas guardava calor como um cachorro velho guarda dono. Era professora, estava de férias de julho, e tinha combinado consigo mesma que aquela semana seria de coisas lentas: pão, sopa, a leitura de um livro empoeirado. Naquele domingo, a cuca. Dissolveu o fermento no leite morno, mediu a farinha com a xícara rachada que veio da casa da vó, quebrou o ovo na tigela de louça amarela. Amassou com as mãos, porque a receita dizia que cuca feita com batedeira fica com a alma apressada, e a avó não escrevia bobagem.
A massa que descansa
A massa cresceu coberta por um pano de prato limpo, ali no canto da bancada onde bate o sol das nove. Fermentação de uma hora, dizia o caderno, e Leontina respeitou a hora inteira: tomou chimarrão na porta dos fundos, regou a salsinha, cortou as bananas em rodelas grossas e polvilhou canela por cima como quem desenhar um mapa. O cheiro foi tomando a casa devagar, primeiro manteiga, depois canela, depois aquele cheiro de infância que não tem nome certo e mora no fundo do nariz.
Para a farofa, ela usou as pontas dos dedos, esfarelando a manteiga gelada na farinha com o açúcar, até a mistura virar uma areia grossa que grudava quando apertava e desmanchava quando soltava. A avó Hilda dizia que farofa de cuca se faz com paciência e ouvidos: quando o barulho dos dedos fica parecido com chuva fina em telhado de zinco, está no ponto. Leontina sorriu sozinha, com as mãos brancas de farinha, lembrando das tardes em que a cozinha da vó virava centro do mundo — como naquele domingo de molho de tomate na panela de barro, em que o molho cobrou a casa inteira e ninguém reclamou do atraso do almoço.
Ela montou a cuca na forma retangular: a massa aberta com os dedos, as rodelas de banana por cima em fileiras tortas, a farofa de canela cobrindo tudo como uma manta. O forno já estava quente, cento e oitenta graus, e a forma entrou com o cuidado de quem carrega coisa que ainda vai virar memória. Trinta a quarenta minutos, dizia o caderno, até a farofa dourar e a casa inteira passar a cheirar a domingo de gente grande.
O vizinho que voltou
Otávio bateu na porta dos fundos quando a cuca estava com uns vinte minutos de forno. Leontina reconheceu a tosse antes da batida: ele morava na casa da frente, era carpinteiro, e tinha a voz rouca de serragem e fumaça de fogão a lenha. Segurava nas mãos a forma de vidro que ela tinha emprestado no mês passado, quando fez o arroz de forno do domingo em que o almoço virou noite. Trazia também um trouxinho de lenha de laranjeira, porque sabia que o forno dela era caprichoso.
— Adivinhei o que tem aí dentro — ele disse, apontando o queixo na direção do forno, sem invadir a cozinha. — Cuca de banana. Daquela que a sua avó fazia.
Leontina riu, surpresa.
— Você lembra disso?
— Leontina, eu era moleque, mas o nariz era de gente grande. Seu Otávio aí — corrigiu a si mesmo, sorrindo com um canto da boca —, Otávio tinha trinta e sete anos e nariz de carpinteiro: reconhecia madeira boa e cozinha boa de longe. Posso deixar a forma aqui?
Ela abriu espaço na porta e respondeu que podia, e que tinha café passado e cuca saindo em vinte minutos, se ele não tivesse pressa. Ele não tinha. Nunca teve, na frente dela. Sentaram nos banquinhos da cozinha, ele com o café amargo, ela com o chimarrão reacabado, conversando de coisas pequenas: a garoa que tinha molhado a serragem dele na sexta, o feirante que agora trazia banana prata boa de novo, o jeito que as casas da rua iam ficando silenciosas no inverno. A cuca crescendo no forno, estalando a farofa, ocupando a conversa sem pedir licença.
Havia anos que os dois dançavam em volta um do outro, com a delicadeza de quem não quer quebrar louça boa. Ele elogiava o pão dela pelo cheiro que passava pelo portão; ela pedia conselho de ferramenta e esquecia de devolver. Uma vez, no fim de uma festa de setembro, as mãos se tocaram por tempo demais ao dividir um guarda-chuva, e nenhum dos dois falou do assunto depois. Não por medo, mas por respeito ao tempo das coisas.
O cheiro que ficou
A cuca saiu do forno às dez e meia, dourada, a farofa firme e farelenta, as bananas aparecendo nos cantos como olhos preguiçosos. Leontina apoiou a forma sobre o suporte, tirou o primeiro quadrado ainda fumegante e ofereceu a Otávio no pratinho de louça com boca de bombeiro. Ele comeu devagar, de olhos fechados, e disse baixo que era igual à da dona Hilda, ponto por ponto. Leontina sentiu o peito aquecer como o forno.
Foi ela quem estendeu a mão e pousou sobre a mão dele, farinha ainda nos cantos das unhas. Não tinha pressa nenhuma: eram duas pessoas adultas, um domingo inteiro pela frente e um cheiro de canela fazendo as vezes de travesseiro.
— Se você quiser parar em qualquer momento, a gente para — ela disse, olhando nos olhos dele. — Pode me tocar se você também quiser. E se quiser parar, é só falar.
— Quero — respondeu ele, sem rodeio, a voz ainda mais rouca. — E se a gente quiser parar, a gente para. Combinado.
Beijaram-se devagar, do jeito que se come o primeiro pedaço de cuca quente, sem pressa e com atenção aos detalhes. As mãos dele, acostumadas a madeira, souberam ser surpreendentemente macias nas costas dela; as dela, cheirassem a canela, desabotoaram a camisa flanelada com a calma de quem tira farofa de cima da massa. Otávio puxou o pano de prato e a sentou na mesa da cozinha, ainda quente do forno, e ali, entre a tigela vazia de banana e o caderno aberto da avó, com o consentimento dito em voz alta e renovado a cada gesto, se amaram com a paciência de quem amassou pão a manhã inteira. Quando um gesto não servia, ela dizia; quando servia, ela dizia também, e ele respondia do mesmo jeito, e nada ali era mudo ou dado por certo. Quando ela quis parar, pararam, e retomaram um minuto depois, rindo baixinho um na boca do outro, porque parar e recomeçar também era parte do combinado.
Depois, enrolados no pano de mesa que ficou longe da farofa, comeram o segundo e o terceiro quadrados de cuca, de colher e de mão, com café requentado. Ele disse que a farofa estava no ponto de chuva fina, igual a vó mandava; ela disse que a lenha de laranjeira ia render os próximos domingos. Não prometeram nada de futuro, mas ele deixou a forma de vidro na pia como quem marca território de volta, e ela escreveu à margem do caderno da avó, na letra dela: domingo, cuca, Otávio — a anotação mais curta e mais completa de todas as receitas.
Quando ele foi embora, no meio da tarde, a casa continuou cheirando a banana e canela por dois dias. Leontina dormiu cedo naquela noite, com as mãos macias de tanto amassar e um sorriso que ela não justificou para ninguém, porque não devia justificativa a ninguém. Na segunda-feira, ela comprou bananas verdes na feira, de propósito, para dar tempo de amadurecerem até o próximo domingo. Afinal, como a avó Hilda escreveu na última página do caderno, antes de fechar para sempre a lata de farinha: massa boa, gente boa e coisa boa, tudo o que presta nesse mundo leva o tempo que leva.