A Chegada
O cheiro de enxofre subia com o vapor e se misturava ao eucalipto que cresciam selvagens pelo barranco. Mariana largou a mochila no quarto do apart-hotel e ficou parada à janela, olhando as águas termais que brilhavam lá embaixo como poças de luz âmbar sob o crepúsculo. Três meses sem dormir direito. O divórcio havia sugado cada gota de energia que ela achou que tinha, e aquele retiro nas águas termais de Piratuba era o último cartucho — uma amiga havia insistido, e Mariana não tinha forças para discutir.
Ela vestiu o roupão branco que o hotel fornecia, desceu a trilha de pedra e mergulhou na piscina principal. A água morna envolveu seu corpo como um abraço lento. Por volta dos quarenta graus, era quase impossível manter qualquer pensamento rígido. Mariana flutuou de costas, olhos fechados, deixando o calor desmanchar os nós dos ombros, da nuca, daquele lugar entre as escápulas que parecia carregar o peso de dez anos de casamento.
Foi quando ouviu a voz.
— Mariana?
Ela abriu os olhos e se deparou com a silhueta recortada contra a luz alaranjada do pôr do sol. O rosto demorou dois segundos para se formar na memória. Mas quando formou, o estômago dela fez aquela coisa — aquele mergulho involuntário que só acontece uma vez a cada década, se tanto.
— Renato?
Ele sorriu. O mesmo sorriso levemente torto, o mesmo cabelo cacheado agora com alguns fios brancos nas têmporas. Devia estar com quarenta e poucos, como ela. Estava mais largo nos ombros, com um roupão do mesmo hotel, e parecia tão surpreso quanto ela.
— Que coincidência — ele disse, já entrando na água devagar. — Eu vim com uns amigos do trabalho. Terapia de fim de semana, eles disseram. Eu disse que era preguiça disfarçada.
Mariana riu. Uma risada de verdade, a primeira em semanas. Renato era da época da faculdade. Eles tinham ficado por seis meses — o tipo de coisa intensa que acontece quando se tem vinte anos e se acha que o mundo é um lugar generoso. Depois, cada um foi para seu canto. Instagram vez ou outra. Um happy birthday distante. Nada mais.
Águas Quentes
Ficaram na piscina por quase uma hora, conversando como se o intervalo de vinte anos fosse um detalhe menor. Ele era arquiteto agora, com escritório próprio em Porto Alegre. Tinha uma filha de oito anos. Separado também. O divórcio dele era mais recente — seis meses, disse, com aquele tom neutro que Mariana conhecia bem, o tom de quem ainda não decidiu se dói ou se alivia.
— E você? — ele perguntou.
— Três meses — ela respondeu. — E ainda não sei qual é.
Renato ficou quieto por um momento. Depois mergulhou, surfou e apareceu a meio metro dela, a água escorrendo pelo rosto. Os olhos dele eram castanho-escuros, quase negros, e tinham aquela profundidade que Mariana lembrava — a profundidade de quem escuta de verdade.
— Sabe do que eu me lembro de você? — ele perguntou.
— Me diz.
— Daquela vez no rooftop do edifício abandonado na Ricardo Machado. Chovia. A gente tinha subido pra fumar e acabou ficando ali, no meio da chuva, por horas. Você tava com aquela saia de sarja que subia com o vento e você não ligava.
O calor da água pareceu subir alguns graus. Mariana sentiu o sangue afluir às maçãs do rosto e agradeceu ao vapor por disfarçar. Ela se lembrou daquela noite perfeitamente. Lembra de como a mão de Renato tinha subido pela sua coxa, lenta, como quem testa se o gelo aguenta o peso. Lembrava de como a chuva caía nas costas dele enquanto ela o puxava mais perto.
— Você tem boa memória — ela disse, com a voz mais baixa do que pretendia.
— Pra algumas coisas — ele respondeu, olhando-a fixamente.
Um silêncio se instalou entre eles — o tipo de silêncio espesso que não é vazio, é cheio. Cheio de tudo que não foi dito em vinte anos. Cheio de curiosidade e reconhecimento e daquela eletricidade estática que, aparentemente, não tinha prazo de validade.
A Trilha das Fontes
No dia seguinte, Mariana acordou cedo — um milagre. Tomou café no restaurante do hotel com vista para o vale e, quando olhou para a mesa ao lado, Renato estava lá, com um livro aberto e um café fumegante.
— O.R. você continua madrugadora — ele disse, sem levantar os olhos.
— O.R.? — ela repetiu, sentando-se sem ser convidada.
— Olhos Revoltados. Apelido que eu te dei em 2004. Você não lembra?
Ela lembrou. Olhos Revoltados, porque ela nunca aceitava a primeira versão de nenhuma história, sempre ia atrás, questionava, desmontava. Mariana sentou-se e pediu suco de laranja. O garçom demorou, e eles aproveitaram o intervalo.
— Meus amigos foram fazer trilha — Renato disse, fechando o livro. — Eu ia ficar aqui ler. Mas agora estou pensando em ir até as fontes quentes lá em cima. As que ficam no meio do mato, onde ninguém vai.
— Eu vi no folheto — Mariana disse. — Achei que fossem só pros hóspedes do spa premium.
— São pra todo mundo — ele disse, sorrindo. — Mas quase ninguém vai porque exige caminhar vinte minutos pela trilha. Brasileiro não caminha vinte minutos por prazer.
Ela riu de novo. Naquela manhã fria de junho, com o sol recém-nascido cortando a neblina, Mariana vestiu a calça de moletom, pegou uma garrafa térmica de chá que enchera no quarto, e seguiu Renato pela trilha que subia o morro.
A floresta de araucárias filtrava a luz em feixes dourados. O chão era macio de folhas mortas. Renato ia à frente, e Mariana observava — a largura das costas, o jeito como ele desviava dos galhos baixos, o passo compassado. Era um corpo que envelheceu bem, pensou ela. Um corpo que se movia com confiança silenciosa.
A fonte ficava no interior de uma formação rochosa natural, protegida do vento. A água brotava do solo num tom turvo e esverdeado e se acumulava numa bacia de pedra do tamanho de uma banheira. O vapor era tão denso que parecia tecido suspenso no ar.
— Eu venho aqui toda vez que posso — Renato disse, tirando a camiseta. — É o único lugar do mundo onde eu consigo não pensar.
Mariana desviou o olhar dos músculos do abdômen dele e ficou olhando as árvores. O coração dela batia num ritmo que não tinha nada a ver com a subida da trilha.
— Vai entrar? — ele perguntou.
Ela tirou a camiseta de moletom. Por baixo, usava o biquíni que trouxe por precaução. Renato olhou — olhou mesmo, não aquele relance educado que homens fazem em público, mas um olhar demorado, que percorreu os ombros, o colo, a cintura, como quem reconhece um terreno que esteve perdido por muito tempo.
— Você continua bonita — ele disse, baixo.
— E você continua dizendo o que eu preciso ouvir — ela respondeu, entrando na água antes que ele notasse o rubor.
O Peso da Água
A bacia era pequena. Duas pessoas mal cabiam sentadas. As pernas de Mariana tocaram as de Renato debaixo da superfície e nenhum dos dois recuou. A água estava quente a ponto de beirar o desconfortável, e isso fazia tudo parecer mais lento, mais denso, mais real.
— Me conta — ele disse.
— Sobre?
— Sobre você. Esses vinte anos. O que aconteceu.
Mariana começou a falar. Falou da faculdade de nutrição que largou, do casamento com um homem bom mas opaco, dos anos em que se sentiu uma personagem secundária na própria vida. Falou da descoberta recente de que era capaz de sentir raiva — uma raiva que morava no peito como brasa e que ela abafava com antidepressivos e vinhos.
Enquanto falava, Renato a ouviu em silêncio. E em algum momento, sem que nenhum dos dois percebesse exatamente quando, a mão dele encontrou a dela debaixo da água. Os dedos se entrelaçaram. Mariana não parou de falar — e esse era o sinal. A voz dela continuou firme enquanto o corpo inteiro registrava aquele contato como algo que não era casual.
Quando ela terminou, o silêncio voltou. Mas dessa vez era diferente. Era o silêncio de quem está prestes a tomar uma decisão.
Renato puxou a mão dela para cima da água. Olhou para os dedos entrelaçados, como se estivesse lendo algo escrito ali.
— Eu não vim aqui pra isso — ele disse.
— Eu sei — Mariana respondeu.
— Mas?
— Mas eu também não — ela disse.
Ele soltou a mão dela, e por um instante Mariana achou que tinha sido longe demais. Mas então Renato levantou a mão molhada e tocou o rosto dela. O polegar passou pelo lábio inferior, lento, e Mariana sentiu a temperatura da água na pele dele misturada com a textura áspera do dedo.
— Eu pensei em você milhares de vezes — ele disse. — Nesses vinte anos. Mais do que devia.
— Eu também — ela admitiu.
O beijo aconteceu sem que nenhum dos dois se inclinasse primeiro. Foi como se o espaço entre eles tivesse simplesmente decidido se fechar. Os lábios de Renato tinham gosto de café e de algo salgado que poderia ser suor da trilha ou lágrimas de algo que ela não nomearia. A boca dele era firme e paciente, como lembrava, e Mariana abriu a sua como quem abre uma janela que esteve fechada por uma estação inteira.
Depois da Fonte
A mão de Renato desceu pelo pescoço dela, achou a alça do biquíni, e a afastou sem pressa. Mariana respirou fundo — não era nervosismo, era o contrário. Era o alívio absurdo de estar sendo tocada por alguém que a conhecia, que sabia onde apertar e onde acariciar, porque em vinte anos o mapa do corpo pode mudar mas a geografia dos gestos permanece.
Ele a puxou para si na água quente. O corpo dele contra o dela era um choque térmico na melhor acepção — a pele úmida, os músculos duros sob a superfície macia, o pêlo do peito raspando contra os seios. Mariana envolveu as pernas na cintura dele e sentiu a ereção através do tecido fino do sungão.
— Renato — ela sussurrou, e o nome na boca dela tinha um peso que surpreendeu a ambos.
Ele a beijou de novo, mais fundo. Uma mão apertou o quadril dela com força suficiente para marcar, e Mariana gemeu contra a boca dele — um som que veio de um lugar que ela achava que tinha secado. A mão livre de Renato subiu pelo corpo dela, achou o seio, e o polegar desenhou círculos lentos ao redor do bico que endureceu imediatamente sob o toque.
A água quente fazia tudo parecer em câmera lenta. Cada movimento tinha uma gravidade acrescida. Quando Renato finalmente afastou o sungão e ela sentiu o calor diferente da pele dele — mais quente do que a fonte, mais real — Mariana fechou os olhos e soltou o ar que parecia carregar os três meses de solidão, os vinte anos de distância, a sensação de ter voltado pra casa sem sair do lugar.
Ela o acolheu com um gemido longo e contínuo, e ele entrou nela devagar, com a paciência de quem sabe que o melhor já aconteceu e o resto é pura generosidade. O ritmo ficou crescendo — primeiro como respiração, depois como batida, depois como algo que não tinha nome, só urgência. As mãos de Mariana afundaram nos ombros dele e ela mordeu o pescoço dele quando o orgasmo subiu — não como onda, mas como terremoto, partindo do centro e irradiando até os dedos dos pés.
Renato veio logo depois, com um gemido abafado contra o cabelo dela, e os dois ficaram assim, interligados, flutuando na água morna que não julga, não cobra, não pergunta.
Ficaram na fonte por mais uma hora. Conversaram, riram, ficaram em silêncio. Quando finalmente voltaram pela trilha, o sol estava alto e as sombras das araucárias eram curtas e definidas.
Não combinaram nada. Não trocaram promessas. Mariana sabia que voltaria para Florianópolis na segunda-feira e que a vida continuaria com seus problemas reais — a pensão, o apartamento vazio, a carreira que precisava de reinvenção. Mas quando Renato a segurou pela mão na descida da trilha e ela apertou de volta, ela soube que algo havia mudado. Nem tudo estaria bem — ela não era ingênua o suficiente para isso. Mas pela primeira vez em três meses, ela sentiu que o mundo era, de fato, um lugar generoso.