Clara olhou para o relógio do celular: 23h47. Faltavam três entregas para encerrar o turno e ela já sentia os ombros pesados sob a mochila. O aplicativo pulsou com um novo pedido — apartamento 402, prédio antigo na Rua das Palmeiras, um morango com chocolate quente e uma garrafa de vinho tinto. Coisa de gente solitária numa quinta-feira fria de junho.
O Endereço Desconhecido
Ela subiu as escadas de mármore rachado do prédio sem elevador. O corredor do quarto andar cheirava a cera velha e algo floral, talvez jasmim, que escapava por debaixo de alguma porta. O número 402 era o último da esquerda. Uma luz morna filtrava pela fresta.
Clara bateu duas vezes. O som ecoou vazio por alguns segundos antes de ouvir passos descalços se aproximando. A porta se abriu e apareceu um homem de talvez trinta e dois anos, cabelo escuro desgrenhado, camisa de linho aberta no peito, com um sorriso preguiçoso que não combinava com a hora tardia.
— Boa noite. Sou da entrega — ela disse, erguendo a sacola térmica.
— Entra um segundo. Vou pegar a carteira. O ar-condicionado lá dentro é um presente — ele disse, afastando-se sem esperar resposta.
Clara hesitou. Não era protocolo entrar na casa do cliente. Mas o frio do corredor era mordente e ela tinha cinco minutos de pausa acumulados. Entrou.
O apartamento era amplo para o tamanho do prédio. Tetos altos, paredes de tijolo aparente, livros empilhados no chão como se quem morasse lá tivesse abandonado a ideia de estantes. Uma mesa de jantar com duas cadeiras, apenas uma ocupada por um laptop aberto e um copo de água pela metade.
— Desculpa a bagunça. Trabalho de casa — ele falou de algum canto, e ela ouviu o som de gavetas sendo abertas.
Clara ficou parada no meio da sala, olhando para uma pintura abstrata na parede — manchas de azul e laranja que pareciam um pôr do sol visto de dentro d’água. Quando se virou, ele estava ali, a poucos passos, com uma nota de cinquenta na mão.
— O troco pode ficar — ele disse, olhando nos olhos dela de um jeito que não era exatamente customary.
A Troca que Não Estava no Pedido
— Obrigada, mas eu preciso do troco mesmo — Clara respondeu, mantendo o tom profissional, embora sentisse o rosto esquentar.
Ele riu baixo, um som grave e confortável como um violão afinado. Buscou o troco na carteira e estendeu as moedas. Quando ela esticou a mão, os dedos dele roçaram nos dela de propósito. Não foi acidente. O toque era lento, deliberado, quente.
— Você sempre faz entregas nesse horário?
— Quase sempre. Gosto da cidade vazia.
— Eu também. É quando as coisas ficam honestas.
Clara deveria ir. Sabia disso. Tinha mais duas entregas, o aplicativo ia cobrar atraso, e ela não era o tipo de mulher que entrava no apartamento de desconhecidos. Mas havia algo naquele olhar — direto, sem pressa, sem ameaça — que a prendia no lugar como um imã silencioso.
— Qual o seu nome? — ele perguntou.
— Clara.
— Eu sou Tomás. Quer sentar? Cinco minutos. O vinho que pedi é bom demais para beber sozinho.
Ela deveria ir. Mas sentou.
O Vinho e o Silêncio
Tomás abriu a garrafa com gestos calmos, sem pressa, como se o tempo não existisse além daquelas paredes. Serviu dois copos e entregou um a ela. O vinho era escuro, quase negro, e cheirava a amora e madeira.
— O que você escreve? — Clara perguntou, olhando para o laptop.
— Contos. Ficção. Coisas que ninguém lê, mas que eu preciso colocar no papel.
— Todo mundo lê. É só questão de encontrar o leitor certo.
Tomás a olhou com um interesse novo, como se ela tivesse dito algo que ele não esperava.
— Você é interessante, Clara de entregas noturnas.
Ela deu um gole no vinho e sentiu o álcool abrir caminho pelo corpo, desfazendo o nó dos ombros. O apartamento estava quente, talvez demais. Ela tirou a jaqueta do uniforme e deixou sobre o braço da cadeira. Por baixo usava uma camiseta justa e simples, e notou que os olhos dele desceram por um segundo antes de voltar ao copo.
— Posso ser honesto? — Tomás disse.
— Pode.
— Quando abri a porta e vi você, pensei que era uma piada do universo. Mulher bonita entrando no meu apartamento à meia-noite com morangos e vinho. Parece o começo de um dos meus contos.
Clara sorriu. — E nos seus contos, o que acontece depois?
O silêncio que se seguiu tinha peso. Tomás colocou o copo na mesa. Ela fez o mesmo. Ele se levantou, caminhou até ela com passos medidos, e parou logo atrás de sua cadeira. Clara não se moveu. Seu coração batia no pescoço.
— Nos meus contos — ele disse, a voz agora perto da orelha dela —, a pessoa certa se aproxima, e ninguém pergunta permissão com palavras. Pergunta com o corpo. E a outra pessoa responde da mesma forma.
A mão dele tocou o ombro dela. Clara fechou os olhos. Não disse não. Não se afastou. Isso era a resposta.
Quando o Corpo Responde
Os dedos de Tomás deslizaram do ombro para a nuca, achando o cabelo preso num coque frouxo. Ele puxou o elástico com cuidado e o cabelo caiu pelas costas dela. Clara respirou fundo e se virou na cadeira, encontrando o rosto dele a centímetros do seu.
— Tem certeza? — ele perguntou, e aquela pergunta, simples e direta, dissolveu qualquer resistência que restava.
— Tenho — ela disse, e puxou-o pelo colarinho da camisa.
O beijo começou devagar, como o vinho — amargo, encorpado, denso. Os lábios dele eram quentes e moviam-se com uma calma que a deixou impaciente. Ela mordeu o lábio inferior dele e sentiu o som que ele fez vibrar entre eles. As mãos dele desceram para sua cintura e a levantaram da cadeira como se ela não pesasse nada.
Clara enroscou as pernas na cintura dele enquanto ele a carregava pelo apartamento até o quarto. A cama era grande, lençóis amarrotados, e ela caiu de costas sobre eles com um riso baixo que não reconheceu como seu — solto, livre, sem a armadura do uniforme e do turno e das regras.
Tomás se inclinou sobre ela, apoiando os antebraços dos dois lados da sua cabeça, e a olhou de cima com uma expressão que misturava fome e reverência. Ele desabotoou a camiseta dela com dedos pacientes, revelando a pele aos poucos, como quem desembrulha algo que vale a demora. Quando a boca dele encontrou o seio dela, Clara arqueou as costas e agarrou os cabelos dele.
— Não para — ela sussurrou, e não sabia se era ordem ou prece.
Ele não parou. A língua dele traçava círculos lentos enquanto a mão descia pela barriga dela, encontrando a barra da calça. Clara levantou os quadris para ajudar, e em segundos a roupa era coisa do chão. Ela estava nua sob a luz amarela do abajur, e em vez de vergonha sentiu uma onda de poder — ele a olhava como se fosse a única coisa real naquele quarto cheio de livros.
Tomás tirou a camisa e a calça com menos cerimônia, e quando o corpo dele se encostou no dela, pele contra pele, Clara soltou um suspiro longo que pareceu carregar toda a exaustão da semana.
O Ritmo da Noite
Ele a beijou de novo, agora com mais urgência, e a mão dele desceu entre as pernas dela com a confiança de quem sabe ler o corpo alheio. Os dedos encontraram o calor úmido e Clara gemeu contra a boca dele, as unhas cravando nas costas largas de Tomás.
— Você está tão — ele começou, mas ela interrompeu com outro beijo, não querendo palavras agora, querendo only isso: o ritmo dos dedos, a pressão certa, o build que a fazia subir como maré.
Quando ela veio, foi com os olhos fechados e o nome dele na ponta da língua, pronunciado num sussurro que mal existiu. Tomás esperou. Deixou o corpo dela descansar por um momento antes de se posicionar entre as pernas dela.
Clara abriu os olhos e olhou para ele. — Camisinha?
— Na gaveta — ele disse, esticando o braço.
Ela percebeu que ele não quebrou o ritmo. Não houve pausa constrangedora, não houve hesitation. Ele vestiu a proteção com praticidade e voltou para ela, entrando devagar, polegada por polegada, watching a expressão do rosto dela como quem lê um manuscrito valioso.
Clara envolveu as pernas nas costas dele e começaram a se mover juntos. No começo era lento — cada thrust profundo e deliberado, como se estivessem gravando algo que queriam lembrar. Mas o ritmo acelerou naturalmente, guiado pela respiração dela, pelos sons que escapavam da garganta de Tomás, pela fricção que construía algo enorme dentro dos dois.
— Clara — ele disse, e o nome soou diferente agora, carregado de peso, de proximidade, de algo que não tinha nome.
Ela veio antes dele, pela segunda vez, com um grito abafado contra o ombro de Tomás. Ele a seguiu poucos segundos depois, com um gemido longo que pareceu esvaziar tudo que ele carregava. Caíram juntos na bagunça dos lençóis, ofegantes, suados, conectados ainda pelo simples fato de não se separarem.
A Hora de Partir
Clara olhou para o celular no chão. 00h34. Duas entregas atrasadas. O aplicativo devia estar piscando vermelho com alertas de cancelamento.
— Preciso ir — ela disse, sem se mover.
— Sei.
Ela se levantou devagar, vestiu as roupas com a mesma calma com que as tirou. Tomás ficou na cama, apoiado nos cotovelos, observando-a com aquele sorriso preguiçoso que agora significava outra coisa.
— O morango e o chocolate — ela lembrou, rindo.
— Ainda estão na sacola térmica. Toma — ele disse. — Considera parte da gorjeta.
Clara pegou a sacola, a jaqueta, o celular. Na porta, se virou.
— Posso voltar amanhã? — ela perguntou, e surpreendeu a si mesma.
— Amanhã e depois de amanhã — Tomás respondeu. — Mas só se trouxer outra garrafa desse vinho.
Ela sorriu, fechou a porta atrás de si e desceu as escadas de mármore rachado com o corpo ainda vibrando, a sacola térmica na mão, e a certeza de que aquela quinta-feira fria havia se tornado a melhor noite do mês.