junho 17, 2026

A Entrega do Manuscrito: Um Conto Erótico

Mariana não costumava ler manuscritos no fim de semana. Mas algo naquele texto a prendeu desde a primeira página — uma crônica de desejo escrita com uma honestidade crua que ela raramente encontrava na pilpa de submissões da editora. O autor assinava como Tomás Reis. Na segunda-feira, ela o convidou para uma reunião no escritório, depois do horário de expediente.

O Convite

O sol de Lisboa entrava oblíquo pelas janelas do sexto andar quando Tomás apareceu. Trajava um blazer de linho desabotoado e carregava uma pasta de couro gasto. Tinha quarenta e poucos anos, ombros largos, barba fazendo dias, e um olhar que parecia avaliar o ambiente com a mesma atenção com que descrevia cada cena de seu livro.

— Sente-se — disse Mariana, indicando a poltrona diante da mesa. Ela própria usava um vestido escuro de alças finas, simples, mas que conhecia bem o efeito que causava quando ela se inclinava para alcançar algo.

— Obrigado por me receber fora do horário — ele disse, a voz grave preenchendo o escritório vazio.

— Seu manuscrito me obrigou a isso. — Ela cruzou as pernas, deixando o salto tocar o chão com um clique seco. — Achei que valia a pena conversar sem interrupções.

Tomás a observou por um instante antes de abrir a pasta. — Então você leu até o final.

— Cada linha.

A Leitura em Voz Alta

Mariana girou a cadeira e pegou o exemplar impresso que marcara com post-its cor de rosa. As anotações eram profissionais — ritmo, repetição, ponto de vista — mas havia certas passagens em que ela apenas traçava um risco vertical na margem, sem comentários. Eram as cenas que a fizeram parar de ler, respirar fundo e voltar ao início do parágrafo.

— Capítulo sete — ela disse, abrindo o livro na página marcada. — Quando a personagem chega ao apartamento do homem e ele não a toca de imediato. Ele apenas pede que ela descreva o que quer. Essa construção de tensão é excepcional.

Tomás recostou-se na poltrona. — Escrevi aquela cena em uma noite em que eu mesmo não sabia o que queria. Achei que soaria confusa.

— Soa autêntica. — Mariana encontrou o trecho e, sem pensar muito, começou a ler em voz alta: “Ela ficou de pé no centro da sala, sentindo o olhar dele percorrer seu corpo como um dedo que Decide demorar. Ele não pediu que ela se despisse. Pediu que ela falasse. Cada palavra seria uma peça de roupa a menos.”

O silêncio que se seguiu tinha uma textura. Mariana levantou os olhos do papel e encontrou o olhar de Tomás fixo em seus lábios.

— Continue — ele disse, com uma calma que não escondia o que underneath.

A Primeira Palavra

Algo se alterou no ar condicionado do escritório — ou talvez fosse apenas a percepção de Mariana se aguçando. Ela fechou o livro lentamente, mantendo o dedo entre as páginas como um marcador improvisado.

— Sabe o que me intrigou demais? — ela perguntou, a voz meio tom abaixo do normal. — Em nenhum momento do livro o autor deixa claro se aquilo que as personagens sentem é amor ou apenas fome.

Tomás se inclinou para frente, os cotovelos nos joelhos. — E você, como editora, acha que precisa ser claro?

— Como mulher — Mariana corrigiu —, acho que a ambiguidade é a parte mais excitante.

O riso dele foi curto, quente. Ele se levantou, e ela notou que era mais alto do que parecia sentado. Caminhou até a janela e ficou de costas por um momento, olhando o Tejo refletindo o laranja do pôr-do-sol.

— Mariana — ele disse sem se virar —, eu não vim aqui hoje só para falar de edição.

Ela sentiu o estômago apertar de um jeito que reconhecia: era a mesma sensação que tivera lendo o capítulo doze, sozinha em casa, com as luzes apagadas.

— Eu sei — ela respondeu.

Além das Páginas

Quando ele se virou, o tempo entre o movimento e o primeiro beijo foi quase inexistente. Tomás cruzou o escritório em três passadas e a beijou com a mesma precisão com que escolhia cada palavra. Não foi um beijo suave — foi um beijo de quem tinha pensado naquilo há semanas e não queria perder mais tempo com preliminares verbais.

As mãos dele acharam a nuca de Mariana, os dedos entrando no cabelo escuro, puxando com uma firmeza que fez ela suspirar contra a boca dele. Ela respondeu segurando as abas do blazer e puxando-o para mais perto, sentindo o calor do corpo dele através do linho.

— A mesa — ela murmurou entre beijos.

Tomás a levantou sem esforço e a sentou sobre a superfície de vidro, espalhando os papéis marcados com post-its rosa pelo chão. Mariana envolveu as pernas ao redor da cintura dele e sentiu a resposta imediata — dura, evidente, pressionando contra ela através da roupa.

— Isso — ela disse, com um meio sorriso —, é o que o seu manuscrito faz com as pessoas.

— Imagina o que o livro inteiro faria — ele replicou, beijando a linha do maxilar dela enquanto as mãos subiam pelas coxas, empurrando o tecido do vestido para cima.

O Diálogo dos Corpos

Mariana tirou o blazer dele com movimentos práticos, puxando a camisa por dentro da calça. As mãos dela percorreram o peito peludo, os mamilos duros sob a palma, e ele inspirou fundo quando ela apertou.

— Você escreve sobre controle — ela disse, abrindo o cinto dele —, mas agora parece que está perdendo o seu.

— Talvez eu queira perder — ele respondeu, e o tom de entrega na voz dela fez um arrepio percorrer a espinha.

Ela deslizou da mesa e ficou de pé diante dele, tirando o vestido por cima da cabeça em um só movimento. Ficou apenas em sutiã e calcinha pretos — um conjunto que não tinha nada a ver com sorte e tudo a ver com a intenção de se sentir poderosa naquele dia.

Tomás a olhou de cima a baixo como quem examina um texto perfeito: sem pressa, apreciando cada detalhe. — Vire-se — ele pediu.

Ela obedeceu, apoiando as mãos na mesa, sentindo o vidro frio contra as palmas. Ouviu o som do zíper, o ranger do tecido, e então as mãos dele nos quadris, puxando-a para trás com firmeza.

Ele deslizou os dedos pela cintura dela, pela barriga, até alcançar o elastano da calcinha. Não a tirou de imediato — passou os dedos por cima do tecido, sentindo a umidade que já se formava, e Mariana soltou um gemido baixo.

— Isso — ele disse, ecoando as palavras dela —, é o que você faz com os manuscritos dos outros.

Ela riu, mas o riso virou um suspiro quando ele finalmente empurrou o tecido para o lado e os dedos encontraram a carne molhada, quente. Ele a tocou com a mesma atenção com que escrevia: lento, deliberado, explorando cada dobra, cada reação, como se estivesse mapeando um território que pretendia dominar.

A Revisão Final

Quando ele entrou nela, Mariana agarrou a borda da mesa com força suficiente para fazer os papéis restantes tremerem. Ele foi fundo de uma vez, sem aviso, e ela arqueou as costas com um gemido que não tentou conter — não havia mais ninguém no andar, e aquele som pertencia apenas aos dois.

— Olha para mim — ele pediu, e ela virou a cabeça sobre o ombro. O olhar dele era intenso, escuro, completamente focado nela. — Assim. Não esconda nada.

Cada thrust era firme e intencional, um ritmo que construía tensão da mesma forma que os melhores capítulos do livro dele. Mariana sentia o corpo respondendo em ondas — o calor subindo pela pele, os músculos das coxas tremendo, a respiração ficando curta e irregular.

As mãos dele subiram do quadril aos seios, puxando as taças do sutiã para baixo e cobrindo os mamilos com as palmas. Ela se apoiou em um braço e levou a mão livre ao cabelo dele, puxando, controlando o ângulo do beijo que ele imprimiu no pescoço dela.

— Estou perto — ela avisou, a voz rachada.

— Então vai — ele disse contra a pele dela, acelerando o ritmo. — Vai e não segure.

O orgasmo a atingiu como uma onda que arrebenta — longo, tremido, fazendo os joelhos fraquejarem. Ela teria caído se não fossem as mãos firmes dele nos quadris, mantendo-a no lugar enquanto ele continuava se movendo, perseguindo o próprio clímax.

Quando veio, ele a puxou para trás contra o peito, enterrando o rosto no pescoço dela, e o som que soltou era bruto e desprotegido — nada literário, nada construído. Apenas puro.

Ficaram assim por um momento, o escritor e a editora, ofegantes no escritório vazio, com o Teja pegando fogo lá fora e papéis espalhados pelo chão como páginas arrancadas de um romance que ninguém mais leria.

Posfácio

Mariana se recompôs primeiro. Ajeitou o sutiã, puxou o vestido do chão e vestiu-o com uma calma que não sentia por dentro. Tomás arrumou a camisa e o cinto em silêncio, mas o olhar que a acompanhava era diferente agora — tinha uma intimidade que não existia antes daquele beijo.

— O livro — ela disse, recuperando a postura profissional com um esforço quase cômico —, precisa de revisão no terceiro capítulo. O diálogo está redundante.

Tomás abotoou o blazer e sorriu. — Posso trazer a versão corrigida na próxima semana.

— Traga — ela disse, sentando-se na cadeira como se nada tivesse acontecido. — Depois do expediente.

Ele pegou a pasta, caminhou até a porta e parou com a mão na maçaneta. Sem se virar, disse:

— Capítulo doze. Quando você leu sozinha, com as luzes apagadas. O que você fez depois?

Mariana cruzou as pernas e encostou-se na cadeira. — Isso, Tomás, fica para a sequência.

O riso dele ecoou pelo corredor vazio enquanto a porta se fechava. Mariana olhou para os post-its rosa espalhados no chão e, pela primeira vez em anos, sentiu que a edição podia ser muito mais interessante que a publicação.