Marcos não costumava fazer isso. Atras da tela do computador, depois de semanas sem sair de casa para além do trabalho, ele encontrou o perfil. Valéria. Olhos castanhos penetrantes, sorriso torto que prometia travessuras, corpo que ele reconheceu de alguma parte da memória — mas não soube situar de imediato. As fotos eram elegantes, discretas, mas suficientes para acender algo adormecido. Ele ligou. A voz do outro lado era quente, sem pressa, e combinaram um encontro em um hotel no centro de Lisboa para a sexta-feira seguinte.
A Chegada
O quarto tinha vista para o Tejo. Marcos havia comprado uma garrafa de vinho verde, arrumado as toalhas, trocado de camisa três vezes. Quando a batida na porta veio, às nove em ponto, seu coração disparou. Ele abriu e ali estava ela — mais alta do que ele imaginara, vestindo um casaco de linho sobre um vestido preto justo que realçava cada curva. O perfume era amadeirado, com uma nota floral que ficou no ar depois que ela entrou.
— Boa noite — disse ela, entregando-lhe um sorriso que ele já tinha visto em algum lugar. — Posso?
Marcos fez um gesto convidativo, fechou a porta e sentiu as pernas ficarem um pouco instáveis. Valéria olhou ao redor do quarto com calma, como quem avalia um cenário.
— Gostas do que vês? — perguntou ele, tentando parecer mais confiante do que se sentia.
Ela se virou e o olhou de cima a baixo, devagar, sem pressa.
— Ainda não decidi. Mas o cenário é promissor.
Reconhecimento
Ela tirou o casaco e o depositou na cadeira. O vestido escorregava pelos ombros de um jeito que parecia acidental, mas Marcos sabia que não era. Ele pegou as taças de vinho e entregou uma a ela. Quando os dedos se tocaram, uma faísca elétrica percorreu seu braço. Valéria sentou-se na beira da cama, cruzou as pernas e o observou enquanto ele bebia um gole.
— Sabes, não és o primeiro cliente que parece nervoso — disse ela, com uma doçura inesperada. — Mas és dos poucos que se preocupou em arrumar o quarto.
Marcos riu baixo. — Sou professor. Organização é second nature.
Ela sorriu e, nesse movimento, algo se encaixou na memória dele. O ângulo do rosto, a forma como os lábios se separavam. Ele piscou.
— Espera… Eu já te vi.
Valéria não desviou o olhar. Apenas ergueu uma sobrancelha.
— Talvez. Dependendo dos sites que visitas.
O silêncio que se seguiu não foi constrangido — foi eletrizante. Marcos engoliu em seco ao conectar os pontos. Valentina Vega. Ele havia assistido a dezenas de vídeos dela nos últimos dois anos. Cenas que ele revisitava nas noites solitárias. E agora ela estava sentada na sua cama, bebendo o vinho que ele comprara.
— Isso é um problema? — perguntou ela, genuinamente curiosa.
— Não — ele disse, depois de uma pausa longa demais. — É… fascinante.
O Primeiro Toque
Valéria — ou Valentina, ele não sabia qual nome usar — colocou a taça na mesinha de cabeceira. Levantou-se e caminhou até ele com uma lentidão deliberada, cada passo marcando o ritmo de algo que estava prestes a começar. Parou a poucos centímetros. O perfume dele ficou mais forte misturado ao dela.
— Queres saber uma coisa? — ela sussurrou, os lábios quase tocando o queixo dele. — Nas filmagens, tudo é ensaiado. Iluminação, ângulos, pausas para a equipe. Mas aqui… — ela colocou a mão no peito dele, sentindo os batidos acelerados — … aqui não tem câmara. Não tem diretor. Só nós.
Marcos soltou o ar que nem percebera que estava segurando. Suas mãos, enfim, encontraram a cintura dela. A pele era macia e quente sob o tecido fino do vestido. Ele puxou-a para mais perto e sentiu os corpos se ajustarem como peças de um puzzle que sempre deveriam ter estado juntos.
Ela beijou-o. Não como nos vídeos — aqueles beijos teatrais, feitos para câmara. Este era diferente. Era profundo, exploratório, com a língua dela encontrando a dele de um jeito que parecia descoberta mútua. As mãos de Marcos subiram pelas costas dela, encontrando o fecho do vestido.
— Tens certeza? — ele murmurou contra os lábios dela.
— Estou aqui por causa disso — ela respondeu, e a sincerity na voz dele derreteu qualquer dúvida restante.
Fora do Roteiro
O vestido caiu no chão. Sob ele, ela usava um conjunto de lingerie vermelha que contrastava com a pele morena — renda fina que escondia mais do que revelava. Marcos afastou-se um passo apenas para olhar, e ela deixou. Não havia vergonha, nem performance. Era alguém confortável no próprio corpo, partilhando-o com quem a merecesse naquele momento.
— Tens o direito de olhar — disse ela, com um sorriso preguiçoso. — Mas também tens o direito de tocar.
Ele não precisou de convite duas vezes. As mãos percorreram os braços dela, desceram pelo torso, pararam na barra da lingerie. Os dedos traçaram a linha da renda antes de deslizá-la para baixo. O seio que emergiu era pesado e perfeito, com o mamilo já duro. Ele curvou-se e levou a boca lá, sugando com uma fome que surpreendeu a ambos. Valéria soltou um gemido que não parecia encenado — era cru, involuntário, e isso excitou Marcos mais do que qualquer cena que ele já assistira.
As mãos dela encontraram a barra da camisa dele e começaram a desabotoar, botão por botão, com uma paciência quase cruel. Quando a camisa caiu, ela passou as unhas pelo peito dele, deixando um rastro de fogo. A boca dela seguiu as unhas — lábios quentes descendo pelo estômago, pelo abdómen, até se ajoelhar à sua frente.
Marcos prendeu a respiração quando ela desfez o cinto, o botão, o zíper. Ela olhou para cima, mantendo contato visual, e ele viu nos olhos dela algo que nenhuma câmara capturaria: desejo genuíno.
A Cena que Ninguém Vê
Quando a boca dela o envolveu, Marcos entrelaçou os dedos no cabelo escuro dela. A língua trabalhava com uma habilidade que vinha da experiência, sim — mas havia algo mais ali. Uma atenção ao detalhe, uma leitura das reações dele que ia além do técnico. Ela sentia quando ele se aproximava do limite e recuava, prolongando, construindo.
— Para — ele conseguiu dizer, com a voz rouca. — Não quero acabar assim.
Valéria sorriu com os lábios inchados e o puxou para a cama. Ele a deitou e tirou o que restava da lingerie, revelando-a inteiramente. O corpo que ele conhecia das telas era ainda mais impressionante ao vivo — cada curva tinha temperatura, textura, reação. Ele beijou o pescoço dela, as clavículas, desceu pelos seios, pela barriga, e quando a boca dele chegou entre as pernas, ela arqueou as costas e agarrou os lençóis.
Ele trabalhou com dedos e língua, aprendendo o ritmo que ela preferia, os pontos que a faziam gemer mais alto. Quando ela puxou seu cabelo e pediu — com uma voz quebrada — que ele subisse, ele obedeceu.
O primeiro movimento dentro dela foi lento, deliberado. Os olhos se encontraram. Valéria envolveu as pernas ao redor dele e murmurou algo que soou como “finalmente”. Ele aumentou o ritmo gradativamente, e ela encontrou o dele, os corpos sincronizados num compasso que não tinha nada de coreografado. Era imperfeito, desordenado, verdadeiro.
Depois das Luzes
O orgasmo dela chegou primeiro — um espasmo que a fez fechar os olhos com força e morder o próprio lábio. O dele seguiu segundos depois, com um gemido que ele tentou engolir mas não conseguiu. Ficaram assim por um momento, ele sobre ela, os dois ofegantes, suados, o quarto cheiro a sexo e vinho.
Marcos rolou para o lado e olhou para o teto. Valéria virou-se de bruços ao lado dele, o queixo apoiado na mão, com um sorriso desfeito.
— Então? — perguntou ela. — Melhor que os vídeos?
Ele riu — uma risada genuína, aliviada.
— Nem compara. Aquilo é cinema. Isto foi real.
Ela se aproximou e beijou o ombro dele, um gesto pequeno e íntimo que não tinha nada de profissional.
— Sabes o que eu mais gosto neste trabalho? — disse ela, a voz já sonolenta. — Não são os clientes bonitos ou os hotéis caros. É quando acontece isto. Quando esquecemos os papéis e somos só duas pessoas.
Marcos passou os dedos pelo cabelo dela, afastando mechas coladas ao rosto suado.
— Posso te perguntar uma coisa talvez imprópria?
— Pode tentar.
— Se eu quiser repetir… como funciona?
Valéria abriu um olho e sorriu.
— Ligas para o mesmo número. Dizes que queres marcar com a Valéria. E se eu estiver disponível… — ela fez uma pausa teatral — …talvez eu te dê o meu número pessoal.
Ele não soube se era parte do serviço ou não. Naquela noite, não lhe importou. O Tejo brilhava lá fora, a cidade dormia, e pela primeira vez em meses, Marcos sentiu que estava totalmente desperto.